sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Solilóquio

Loucura,
demência,
furor,
desatino,
desrazão,
imbecilidade,
estupidez,
mania,
morosidade,
melancolia,
poesia.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Lembrança

De uma vila muito longínqua, em um tempo anacrônico, em um lugar delocalizado, de uma realidade inverossímil, quando um menino de três anos, neste país irremoto, caminhava pelas calçadas desde sua casa até a escola acompanhado por seu pai, este menino que queria usar saia.

O pai, que entendendo a saia como uma vestimenta possível, no hall dos costumes e certezas da sociedade positiva, vestiu o menino de saia para ir a escola e foi achincalhado porque oras o menino iria afinal sofrer bullying na escola. O pai, não teria responsabilidade, ou a responsabilidade que era pra ter. Essa responsabilidade mantenedora, ele não a tinha...

Pior do que isso, diriam algumas vozes. Não bastando, resolveu também o pai, par se, ao acompanhar seu filho na escola, vestir outra saia. E iam os dois, vestidos, com costumes possíveis, para este local difuso, completo por grades.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Noel Rosa

Último Desejo

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
numa festa de São João 
Morre hoje sem foguete, 
sem retrato e sem bilhete 
Sem luar, sem violão 
Perto de você me calo 
Tudo penso e nada falo, 
tenho medo de chorar 
Nunca mais quero o seu beijo 
Mas meu último desejo 
você não pode negar 

Se alguma pessoa amiga 
pedir que você lhe diga 
Se você me quer ou não 
Diga que você me adora, 
que você lamenta e chora 
A nossa separação 
Às pessoas que eu detesto 
Diga sempre que eu não presto, 
que o meu lar é o botequim 
E que eu arruinei sua vida 
Que eu não mereço a comida 
que você pagou pra mim

(É como se... Noel Rosa tivesse me escrito... linha por linha, palavra por palavra, letra por letra).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vasto mundo

Nós lidamos com isso fingindo que entendemos...
Eu não entendo isso.
Quem acredita em wifi, acredita em centro espírita.
Você vai dizer pra mim que uma pessoa quando morre,
não pode ficar em signo, se tudo que esta realidade é, está em signo?
Se eu passo 30 mil páginas, 300 mil ou todo conhecimento da humanidade,
PELO AR, pra ele?
Se o virtual pode, o que mais pode? E o que não pode?

Viviane Mosé.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Solidão

"... Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isto é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há solidão nenhuma..."


Diálogos entre o fantasma de Fernando Pessoa e seu (ainda vivo) heterônimo, Ricardo Reis extraídos de, O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago...

sábado, 19 de novembro de 2016

Preso

Verdadeira prisão é aceitar estar preso...
(De "O Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago).

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Nascer

O silêncio é o gestador dos grandes encontros.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Estudantes estão vivos em 2016

Estudantes ocupando escolas e tendo as experiências da nossa vida por lá... Lutando contra uma pec241 tremenda, horrível, intimidante, abusada, absurda. Talvez uma coisa tão maior do que o talvez. Do que eles mesmo entendam, lutando por conceitos e estruturas simples: educação, saúde, direitos básicos e não arredamos mais o pé. Estas(es) jovens, tão pequenas(os) e valentes...

Estudantes ocupam a escola Irene Stonoga em Chapecó e a escola Tancredo Neves... E a Universidade Federal.

Gerem a limpeza da escola, a cozinha, os mantimentos, como cozinhar, o que comer, quando comer, a grana, a arrecadação de mantimentos, os corredores, o calendário de ocupação com atividades múltiplas.

Que tal: listando os problemas da estrutura física da escola? "Descarga com problema, não use." "Grama cortada, muro quebrado, lâmpadas a trocar, reformas estruturais nas salas, carteiras quebradas?". Uma experiência ABSOLUTAMENTE ÚNICA do espaço público da escola, sendo levada a sério com uma civilidade que... de onde foi que eles tiraram?

Tendo talvez nenhum exemplo nisto, talvez nem de pais, dentre os quais podemos citar, uma tentativa de "botar fogo na escola" pra tirá-los de lá, ou ameaçando este movimento de ocupação eventualmente com arma de fogo. Esbofeteando alguns dos ocupantes, que tal?

Não de governos e suas pecs241, se representados por uma diretora que chama a tropa de choque com fuzis para intimidá-los. Que tal de professores, que torcem o nariz para a ocupação, estas e outras, talvez o único corpo coletivo (as ocupações) que está lutando contra um governo de vampiros tornando todo mundo igual a eles? Deve é ser uma terrível e mortal inveja...

Onde foi que aprenderam esta civilidade pública?

Mas não, senhores conservadores que imediatamente perguntem "estes vagabundos estão impedindo as aulas? Faltando-as? E a matemática, a história, a biologia?" não, senhores conservadores, CONCOMITANTE a isto, as aulas vêm sendo mantidas no Irene Stonoga... Estudantes vamos acordar as 6 da manhã, lavar a escola, arrumar o acampamento, tirar os colchões, montar as salas que a aula começa as 7:30. O mesmo ao meio dia e as 18h.

Em uma dinâmica de grupo, vejo estudantes se apresentando: meu nome é André, Silmara, Paulo, Joana, sou lésbica, gay, hétero, bissexual, não tenho sexualidade, cis, feliz, tenho fissura em barriga, sou comunista, sou evangélico, gosto de falar comigo mesma, sou teimosa, tímido, gorda, cabeludo, só gosto de skate, sou eclético, gosto de todos os tipos de gentes e músicas e comidas.

Estudantes ocupam escolas em 2016. Eles afinal tem todo o futuro a perder, talvez mais do que uma geração de 1980, que o Brasil, este país do futuro... (De gays no armário que ainda se escondem atrás de casamentos falsos? Geração conservadora, geração perdida). A vida vai rindo, que estardalhaço este existir.

Riem-se de uma geração de 1980, que afinal, vocês vão sair do armário antes de morrer?
Avisem-nos quando decidirem parar com este (e outros) fingimento(s)...

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Perder

Quando você sentir que perdeu tudo, tendo a percepção de que, na realidade, você apenas se enganou em possuir muitas coisas. Estas coisas, elas que você nunca possuiu, perdendo-as portanto fantasmagoricamente. Quando você sentir que perdeu tudo, e perdeu os bens mais preciosos a sua vida, ao seu querer. Quando perdeu toda a vontade, quando perdeu todas as certezas, e especialmente sua estabilidade. Então a vida começa.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Amor do poeta, volume 12

Hör' ich das Liedchen klingen, 
das einst die Liebste sang, 
so will mir die Brust zerspringen 
von wildem Schmerzendrang. 

Es treibt mich ein dunkles Sehnen 
hinauf zur Waldeshöh', 
dort lös't sich auf in Tränen 
mein übergroßes Weh'.

https://www.youtube.com/watch?v=RBdPR_wGYSI

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Me achei

VIDA VIDINHA

A solteirona e seu pé de begônia
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.

(Drummond)