terça-feira, 18 de agosto de 2009

O mau Poeta.

Poemas de mau poeta 

mal pensados,

mal talhados,

tortos em linhas retas,

vão que se vão

acusando na mão,

aqui tem um coração

que se senta e pulsa

mas não consegue

dizer com vernáculo

o que lhe vai por dentro

só pensa de momento

sobre algo existir,

Ecco è il fato!


E era italiano.

Finais de Semana

Há aqueles finais de semana sonhadores, esperançosos em Lá  bemol maior, finais de semana em manhãs de sábado com Sol entre folhas de árvores, gosto de relva. Finais de semana com filmes de fim de tarde e que se acabavam no vamos fazer outra coisa porque a televisão no domingo a tarde se negava a funcionar. Parecia dizer: me deixem em paz com minha quietude!


Há aqueles finais de semana nublados, cinzentos e cheios de olhares pro lado em Dó sustenido menor, aqueles em que se olha muito mais pra baixo, um nó na garganta, que passam lentinho, falam baixinho, resolvem uma melodia quieta, e serena de tristeza, límpida, como uma própria flanela de seda, passando lisa no tempo da mesa.


Há os finais de semana tenebrosos em Ré menor, cheio de erros e borrachas e a prova de apagadores de ações feitas e refeitas, penduradas em prego na memória, vincadas a parafusos na pele, que dizem não deixar esquecer este horror que ficou feito, o que se faz e se fará, que diz não deixar esquecer nada disso, tudo anotadinho, no livro das causas sem solução que depois tomará conta não sabemos quem.


Há aqueles finais de semana em Dó maior sem nada disso, aqueles em que só se deseja, trabalhar, estudar, assistir a novela, ler um livro, e começar de novo outras coisas na segunda-feira que não são são as mesmas da última semana.

Questão de Ordem

E essa questão de mundo corrompido

vem de olhar pro próprio umbigo, 

uma vez e outra vez mais?


Qual o quê, já não sabes?

Hoje, é o frio de se pensar

pra onde ainda a vida pode vazar.


Oras, a começar, pra escrever

não restam idéias além das já escritas

e pra ocupar que outra Terra?


O pensamento da história que se quer esquecer,

conseguiu ser ocupado

pelas tropas da OTAN, e Bombas H a guarnecer.


Pode a realidade do papel

com os intentos malevolentes

das rainhas más das óperas financeiras

assombrando os light motifs patentes?


Se pode ou não, o essencial é atenção!

Não sentir mais nada, a receita é feita.

De hoje em diante toda respiração será cobrada.

Ficar permanente e só, eis a prescrição.


Movimento

Move-se a língua sobre a boca

a boca sobre a cara e a cara sobre o ar.

O ar sobre a Terra, a Terra sobre o Sol, o Sol 

sobre a galáxia.

A galáxia sobre as galáxias, as galáxias sobre o Cosmos.

O Cosmos sobre os cosmos, os cosmos sobre o tudo.

O tudo se move sobre palavras. Palavras que nem foram inventadas ainda. Num constante movimento, de poesia.

Uma Compôsita

Deixe lá que se mova perto de si o escadafalso. O escadafalso, exclamagurgitaram todos com ar descompressionante. E que lhe serotoronia este conceituactual?  Era apenas uma faltande pulmonalar. Brônquios, bronquíolos, alvéolos.

A Vida

A vida, esta causa perdida

queria se encontrar nas esquinas

das muheres da vida.

Encontrava-se com homens e mulheres voluptuosas

com formas arredondadas e chapéis de seda clássica.


Perguntou-se se não estaria

perdida entre aquelas mulheres perdidas

Não senhora, aqui sabemos tudo!

Endereço, cep, número de residência!

Bote aí no seu logradouro rua da Avaria.


Mas a vida esta causa perdida

Se insatisfez com as mulheres da vida

e partiu noite súbita, 

sem deixar lenço de adeus

Ou flores educadas, apenas a partida.


Andou por caminhos estreitos, escuros.

Chegou na avenida São João e viu Tom Jobim.

Que dizia pra ela:”deixe a vida te levar!”.

Insatisfeita a vida, causa perdida.

Seguiu para o interior, e lá... quem sabe... enfim.


No meio do caminho, viagem longa de ônibus

A rota das ruas se confundiu e a vida

Entrou nos viadutos errados 

Pra desembocar 

entre o Pinheiros e o Tietê, a chorar.


Mas um verso saudoso. 

Meloso de voz mansa e doce, a saudou

“não chore ainda não”

“que eu tenho uma razão”

“pra você não chorar”.


E a vida, descabelada se refez,

deixou o pranto e a lugubrez

e foi morar noutro lugar

onde se pudera notar

que a vida não é causa perdida.


Desde então com endereço fixo,

os pessimistas a debandar,

exigindo a volta da vida,

pras estradas da perdição

com as mulheres da vida, perdidas.


Mas foi ela pronunciar, um sim ou não

Vieram grupos, hordas, pedras na mão

Queremos que fique ali, aqui, acolá,

E ninguém pra fixar

Um lugar definitivo.


Desde este tempo a vida, escondida,

vive seu cantinho silente.

Passa gel no cabelo a noite,

Come maçãs de sobremesa no almoço.

E nunca esquece... de estar sempre... perdida.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Die kleinen Kleinigkeiten

Der gestreift Pyjama.
Die Erdbeehrenschale.
Das neue Leitmotiv der Freiheit.

Die zarte Bewegung.
Das Erwachen, das den Mond sieht.
Das Geliebte in Vergangenheit geblieben.

Die fortsetzende Verwandlung.
Die vorbereitete Wirklichkeit.
Die Unmöglichkeit der beigefügten Glücklichkeit.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tempo

Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele 
soprando sulcos na pele soprando 
sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou
 meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda. 
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo 
é o tempo 
na verdade faz tempo mas eu escondia 
porque ele me pegava à força e por trás 
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo 
se você tem que me comer 
que seja com o meu consentimento 
e me olhando nos olhos...
Acho que ganhei o tempo 
de lá pra cá ele tem sido bom comigo 
dizem que ando até remoçando.


Viviane Móse.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Prayers for Bobby.

Bom... não deveria fazer propaganda. Mas é impossível, lamento. Este post, é sobre este filme, magnífico, sensível, que toca no "getting out of the closet" em famílias evangélicas. Baseado em uma história real, a de Bobby, um adolescente que se percebe gay numa cidade interiorana no meio dos EUA, numa família evangélica. A história sucede e obviamente não vou contar como as coisas se passam pra não estragar a surpresa de quem não viu, mas apenas comentar...
Que o discurso... no final... foi algo que me quebrou ao meio. Foi pra mim absolutamente massacrante. 

Depois de assisti-lo (há 2 meses mais ou menos), fiquei 3 dias em absoluta escuridão, estupefacto, sem saber que rumo tomar. Nem entendi ainda até hoje, porque fiquei tão chocado. 3 dias em que não conseguia pensar, fazer qualquer coisa, muito menos trabalhar.
Em um próximo tópico... transcrevo o discurso (para os que já viram o filme).

Aos que ainda não viram, pode-se baixar (legendado), por exemplo em

http://www.megaupload.com/?d=9ZY1SNQ6

Não acho que haja filme tão sensível e único, relacionado ao assunto...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Entender.

Se você sempre entender tudo... Se não tiver nenhuma pergunta. Nenhuma dúvida, objeção. Se tudo estiver claro em sua cabeça. Se você vê absolutamente  tudo e compreende completamente e não se pergunta.
Qual seria o sentido da vida então?

Uma Ferida Aberta.

Com o segundo movimento da sétima sinfonia de Beethoven, a ferida aberta.


É uma ferida aberta, sangrando, que fecha, que abre, e neste meio tempo aproveita pra sangrar, pra doer. Não há nada que eu possa fazer pra parar, e na verdade, o que observo é que ela não me é exclusiva. É de todos e todas. É o segundo movimento um contínuo que amassa, notas repetidas, repetidas, repetidas.


Muitas dores de amor poucos tiveram. Sim, isto quer dizer que o coração tá vivo, que pulsa sangue, e também quer dizer que toda vez que acontece,... Um pouquinho mais morremos (mais do que o que já se é permitido com a passagem das horas).


Mas oras, não há de ser nada, nós gays temos um lugar de honra nas decepções de amores, os não realizados. Virou até piada. “Como você reagiria se soubesse por acaso que, seu melhor amigo se apaixonou por você?”.


Se eu descontar todo o preconceito e as situações difíceis que eles geram pros gays. Se eu descontar a influência que isso tem nas decepções dos amores, se eu descontar um milhão de outras coisas como timidez, discrepância versus espalhafatoso, a situação fica difícil. Depois de todos estes descontos, a situação fica só difícil. Não somei ainda a juventude perdida, a puberdade massacrada, não somei a pressão da família, não somei muitas coisas, porque se somar isso ao invés de um texto, terei um volume bíblico pra competir com Moisés em falar sobre sociedade de época.


Ainda. É dito que a porcentagem de gays, muito provável, seja menor do que a de héteros. Ninguém tem números absolutos a respeito, embora se cogite entre 10% da população como gays. No Brasil, o último censo parece ter dado conta de 7% da população ser gay. Adendo: ou somos muito mais preconceituosos em relação ao resto do mundo (óbvio), ou somos “anormais” por ter quase 50% a menos de população gay (com qual das duas será que eu fico) (isto sobre este fake oficial, um número que não diz nada, e só o que pode é enganar).


Não importa o número real de gays. Entretanto, vamos fingir que ele é menor (o que acho provável).


Minimamente significa que as chances de um gay se dar bem em namoro, em relação a um hétero são menores. O que isto quer dizer?


Quer dizer que se daqui há 300 mil anos chegarmos a uma sociedade com bem menos preconceito do que essa de hoje, em que saibamos que 25% de pessoas sejam gays, 10% bi e 65% hétero, não é preciso ser o gênio das matemáticas pra ver que os héteros têm 2,6 vezes mais chances amorosas. Isto meus caros, neste mundo de daqui há 300 mil anos.


No mundo de hoje, ainda vamos botar uns ingredientes pra desbalancer pro nosso lado. Vamos botar que uma boa parte de gays não se aceita. Vamos botar que uma outra boa parte é discreta (nada contra, em absoluto!), outra boa parte não conta pra ninguém embora ativa, outros às escondidas.Outros saem por aí casando e pegando homens e/ou travestis. Outros matando.


Vamos acrescentar que os pais não querem ter filhos gays, e eventualmente afirmam e reafirmam que seus filhos não são gays sem o saberem (gravado na memória... a imagem da mãe, que foi ao colégio defender seu filho de 9 anos acusado de ser gay pelos colegas: ”meu filho não é gay, e mesmo que fosse (mas não é), isso é um desrespeito”... esta foi uma situação presenciada, descrita em primeira pessoa).

Vamos acrescentar que os adolescentes gays não serão gays em suas famílias (em sua maioria). Vamos acrescentar que a adolescência gay, o período em que se começa a namorar, não acontece (na maioria). Vamos acrescentar que o número de suicídios entre gays chega a ser 4 vezes maior nesta época. Vamos acrescentar que algumas (ou todas as) Igrejas, fazem cruzadas e campanhas de massa contra a homossexualidade, que está manipulando e sujando a NOSSA sociedade...


Vamos acrescentar no âmbito jurídico, esta discussão interessantíssima sobe adoção homossexual, que se cogita, pode influenciar as crianças à homossexualidade. Afinal, nós não queremos isso, queremos apenas que os pais sejam héteros e influenciem as crianças à heterossexualidade. Vamos acrescentar um JUIZ que declara publicamente que futebol é um jogo pra machos viris e os gays, se quiserem, que inventem sua própria comunidade (sim, obrigado, INFELIZMENTE, esses guetos já existem).


Acrescentemos um assassinato na praça da Sé de dois homens de mãos dadas. Um, dois, três. Quatro, cinco, seis. Cem...


Por último. A melhor de todas as coisas que podemos acrescentar a este jogo interessante que se sobrepõe ao direito homossexual, é que. Nós podemos espernerar. Gritar, fazer uma balbúrdia, organizar suicídio em massa, fazer paradas gays multi-coloridas. Podemos comprar pompons, glitter, lantejola, porpurina, sair de rosa na rua, Podemos fazer isso, ou tudo ao contrário. E nada, mas NADA vai tirar o preconceito da cabeça das pessoas, a não ser elas mesmas. O remate: nada nem ninguém pode fazer a pessoa refletir sobre o quanto o seu preconceito é danoso a si e aos outros, nem mesmo um bilhão de campanhas anti-preconceito-educativas-informativas....

Disse Einstein, “chegamos a um tempo nem que é muito mais fácil explodir um átomo do que um preconceito.” (parafraseado).


No final só o que sobra é o irrealizável. (A André Pitol).