quarta-feira, 19 de maio de 2010

Tem Problemas? Nós Resolvemos!

Se você for homem branco, de classe média-alta, bonito, heterossexual, sem problemas físicos-psíquicos sua vida vai ser uma beleza!
Homem branco-bem-de-vida-heterossexual-sem-problemas só dá diarréia! Diarréia no pensamento. (Chamemo-lo "homem-bonzinho" daqui pra frente. Bonzinho, porque é contrário daquele que é o malvadinho, que tem o molde diferente).
E o sonho de uma casa ensolarada, com as crianças, a sua esposa magra, loira, alta, afeminada, com pão quentinho, margarina feliz, grama verdinha, carrão na garagem? 
Gonorréia?

Eu posso ver no futuro, quando a química e a biologia já vão ter resolvido os problemas tecnológicos delas, e você vai no mercado pra comprar não roupas, mas uma aparência e lembranças novas, que vai ter todas as variabilidades possíveis de homens-bonzinhos, dessa idéia hemorróida. Que mercado que o que. Você baixa uma pílula sinergética que vão chamar de margarina feliz direto da internet...Pensando bem, não vai mais ter internet, você fará um download direto através do seu corpo hologrâmico. Que é aquela estrutura química que entra onde os antigos chamavam de internet.
O inconsciente coletivo, vai ser a estatística média sobre todas as pílulas tomadas por todas as pessoas...

Eventualmente o homem-bonzinho (o do presente) acaba com alguns problemas: ele se droga, pra esquecer a vida, que é insuportável. Qual era o problema? O problema, era não ter problemas? Não, o problema era só a insuportabilidade que o homem-bonzinho sentia.

O engraçado pra não dizer o trágico é 'a gente dando o máximo de si' pra ser igual ao homem-bonzinho, pra chegar o mais perto que a gente pode dele, e ele querendo sair de si. Quer sair de si nada, ele só não aguenta a vida, mas sair de si é um exagero já. É porque todo mundo quer ser o homem-bonzinho, e o homem-bonzinho quer ser ele mesmo. Todo mundo quer parecer o homem-bonzinho, e o homem-bonzinho quer parecer ele mesmo.

O fato é que no "inconsciente coletivo" (se um fantasma desses existe, e ele existe, vide previsão futura da média estatística sobre as pílulas), o homem-bonzinho não sofre! (Isso se trata com muito Mozart, com muita Mitsuko Uchida fazendo caretas de dor de estômago enquanto arranca o Mozart do teclado no concerto 9). Ele não sofre, e nós sofremos, porque estamos cá um pouquinho aquém dele, e oras sempre estaremos.

Daí quando nós os malvadinhos damos o grande golpe: a desoberta ainda genial de que toda a tristeza de nossa vida é estar aquém dos bonzinhos! Veja-se o drama!

Claro, riquíssima a descoberta tem o seu tratamento: vamos parar com esta história de distâncias e desejar o desejo de agora, vamos lutar com todas as nossas forças internas por desejar a outra coisa.

E não é uma coisa engraçada esta? Nós não só queremos controlar tudo em nossa vida, mas eminentemente queremos controlar como vai ser o nosso desejo de felicidade, o nosso desejo de satisfação, e mais importante o nosso desejo de desejar. Não é engraçado que não nos basta apenas a gente querer alguma coisa, mas também querer querer?

Nós queremos querer, e violentamente mais, depois de descobrir. Ué se a gente quiser querer a coisa certa (aquela que sempre teremos é a coisa certa), eis tudo! Temos a solução pra nossos problemas! Nos resolvemos! Hay problemas? Los resolvemos!

O paradoxo dialético da ponta é não aceitar coisa alguma e nem querer mudar coisa nenhuma. Da ponta: ponta onde nos equilibramos.

É assim o nosso inconsciente coletivo. Todo cagado. E muito conscientemente ele sabe que sua função é estar todo cagado.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Quero ser Discriminado também!

(Texto extraído do blog http://homofobiajaera.wordpress.com/ ).

Eu tinha pensado em escrever um texto sobre homofobia, mas, o que eu queria expressar, é exato como o que eu li num texto há pouco tempo. Que vem logo abaixo. (Eu de fato, convem a ressalva, não teria capacidade para um texto tão profundo e impecável, e por mais este motivo, reproduzo o texto do blog, de autoria de Adriano Mascarenhas (autoria do texto)).

Vamos fazer um pequeno exercício de memória discursiva. Se você tivesse que fazer uma lista dos grupos ou tipos de pessoas que mais sofrem preconceito em nossa sociedade, quem você listaria? Homossexuais, Travestis, Negros, Mulheres, Portadores de Necessidades Especiais, Nordestinos, Pobres. Ok, vamos parar nesses primeiros. Claro que poderíamos listar mais, mas a idéia é nos fixarmos nesse “top of mind”. São os tipos de preconceito mais discutidos atualmente, em programas de TV, blogs, fóruns, comunidades em redes sociais, etc. Essa maior exposição do assunto, pelo que tenho percebido, leva a uma maior conscientização da população, gradativamente, ao ponto de, pouco a pouco, esses preconceitos serem forçados a recuar, tornando-se socialmente condenáveis.

Cada um deles encontra-se em condições muito peculiares nesse processo, mas há uma noção clara de onde estamos e onde devemos chegar: o não preconceito. Vamos chamar de “noção clara” a consciência de que existe um grupo discriminado, um grupo discriminador, e uma situação que precisa ser mudada. A princípio, pode parecer simplório reduzir a questão dos preconceitos a isso, mas peço que detenham-se nessa idéia por um instante, por favor. Simplicidade é uma virtude que precisa entrar na moda porque suscita a clareza de pensamento necessária para nos livrarmos de algumas armadilhas conceituais.

Estou dizendo isso porque parece haver sempre movimentos contrários ou de desaceleração em relação a esse caminho a ser seguido rumo ao fim dos preconceitos. Um tititi, um ruído na comunicação, seguido por um monte de ecos de pensamentos reacionários, atrasados, e que ficam pondo em questão as demandas do movimento gay a todo tempo, como se nunca qualquer das nossas reinvindicações não pudesse simplesmente “ser” e tivesse que ficar se provando ad infinitum. E dá-lhe relativizações, ressalvas duvidosas, inversões, e todo tipo de falácia a serviço de tentativas de dizer que as coisas “não são bem assim” quando atacamos aqueles que nos oprimem. Analisando isso detalhadamente, temos o seguinte:

Quando falo em relativizações, falo da compassividade e condescendência que dizem coisas como “ah, isso é da cultura deles”“eles foram educados para ter preconceito”“vamos dar o braço a torcer para os conservadores nisso”“temos que entender o lado deles”(essa é a que eu mais odeio). Se na “noção clara” que mencionei nós tínhamos, a princípio, um grupo discriminado e um grupo discriminador, a relativização é aquilo que faz o favor de colocar os dois lados numa situação de igualdade argumentativa, como se uma arbitragem neutra idealizada pudesse colocar ambos os “lados” numa balança, conferindo a eles o mesmo peso e observando passivamente uma dinâmica em que há um equilíbrio de verdade. Algo na linha tediosa do“todos têm a sua razão”, coisa que, pra mim, é fruto de uma preguiça de analisar isso racionalmente. Não há “equilíbrio de verdade” entre gays e homofóbicos. Os homofóbicos estão errados e ponto final. Essa frase dói nos olhos de alguém por um acaso? Você sente algum receio ou hesitação em colocar as coisas nesses termos? Por que um ponto final incomoda tanto? Será que não é porque você foi educado para não querer ter a razão em relação a eles?

Depois temos as ressalvas duvidosas. Essas são fáceis de identificar, mas difíceis de combater. Você vê isso quando está discutindo sobre preconceito e ouve a pérola “a homofobia tem que acabar, mas os gays também têm que se dar ao respeito”. Ah, lindo! Lá vamos nós fazer as tais ressalvas, dizendo que os gays devem ser respeitados desde que não sejam promíscuos, desde que não sejam afeminados, desde que se comportem, desde que se vistam de maneira socialmente ajustada, desde que sejam honestos e trabalhadores, desde que tenham caráter, desde que possam pagar um advogado pra isso… desde que não sejam… singulares… Isso é visivelmente virulento no caso do preconceito contra afeminados, e torna-se difícil de combater a partir do momento em que as pessoas dissimulam suas rejeições dentro do escudo das “preferências pessoais”: “Ah, eu não tenho nada contra afeminados, mas não gosto de caras que sejam”. Não digo que todos os que afirmam isso tenham preconceito, mas a auto-afirmação parece dar um grito abafado em frases assim: A pessoa afirma que não tem preconceito, apenas para convencer a si mesma disso, quando isso não é verdade e a ressalva deixa claro. Essa é uma ressalva necessária? Faz mesmo diferença pro mundo, para o tema “preconceito contra afeminados”, que as pessoas saibam que você não gosta de ir pra cama com eles? Para pensar. Pra mim, esse monte de ressalvas é uma maneira de nos permitir que sejamos diferentes, desde que não sejamos diferentes demais, desde que continuemos a não incomodar o status quo. Desnecessário dizer que isso também não produz mudança social alguma.

E por fim temos as inversões, que são a coisa mais baixa que vejo em debates dessa natureza. Voltando à “noção clara”, seria como se o grupo discriminado passasse a ser o discriminador, e vice-versa. Você já viu pessoas tentando desesperadamente dizer que há discriminação contra brancos, homens, héteros, paulistas, ricos? O grito aqui é de “Quero ser discriminado também!”. Jura que você não sente peninha desses grupos? Os contextos são parecidíssimos, não acham? O gay é discriminado por ser gay, e o hétero é discriminado por ser hétero, do mesmo jeitinho que nós. Pois bem, essas inversões surgem em debates sobre preconceito única e exclusivamente porque quem tem preconceito tem também uma tremenda incapacidade de lidar com esse fato e não aceita ser colocado no lugar de algoz que ocupa de fato. O mal tem que estar no objeto de ódio, num sabor bem parecido com o de textos de Olavo de Carvalho e Júlio Severo (que Cher me perdoe por citar nomes de tamanha irrelevância intelectual em um texto meu, mas eu precisava ilustrar). Inventa-se aí a “heterofobia”, a “ditadura gay”, a “misandria”, etc, etc, etc, blábláblá, zzzzz… Ok, eu não vou negar que, realmente, há pessoas dentro de grupos discriminados que acabam desenvolvendo um comportamento revanchista e demonstram reações tremendamente ignorantes contra quem não faz parte do grupo. Mas, será que estamos falando da mesma coisa? Uma coisa é um preconceito majoritariamente difundido pela sociedade inteira contra um grupo, e outra é um preconceito reativo por parte dessa minoria contra o grupo que a discrimina. Um é causa, o outro é consequência. O ciclo tem um começo, e não é na parte discriminada. As inversões não servem pra coisa alguma que não para imputar culpas adicionais a quem é discriminado. Circula-se pelo campo da busca de justificativas desesperadas de última hora para não ter que dar o braço a torcer.

Convém fechar esse texto com algumas reflexões sobre o que vem a ser um preconceito em nível ideológico, e porque é tão sem sentido encher a luta contra ele de entraves, hesitações, e desvios desnecessários e vazios de conteúdo. Sim, vazios porque esse elenco de “poréns” não significa coisa alguma, por mais popular que seja. A homofobia, o racismo, a misoginia, e as tantas outras formas de preconceito social não são frutos de um rompante de inspiração de uma pessoa preconceituosa. Essas coisas têm origem na história, em tensões culturais que já se arrastam há séculos e que têm origens complexas e heterogêneas sendo perpetuadas ao longo do tempo e do espaço na criação familiar, nas tradições, nas escolas e em todos os lugares onde o ser humano se forma. Querer forçar a barra dizendo que o “preconceito” contra o homem branco heterossexual de 20 a 30 anos de classe media é igual a isso é de uma insensibilidade e falta de consciência sem iguais. A pessoa que se presta a esse papel de pedra no sapato ignora todo o peso de uma cultura para ficar “caçando chifre em cabeça de cavalo”. Isso é armadilha conceitual. É encher a militância de problemas inexpressivos ou inexistentes só por birra e desejos reacionários ocultos.

A nossa guerra é contra o conservadorismo em todas as suas formas. Conservar é manter como está. A guerra é contra o passado, para enterrá-lo em seu lugar e permitir que um futuro de verdade nasça, não se constituindo apenas como um eterno arrastar de mentalidades atrasadas que se recusam a deitar e morrer, e ainda arranjam seus meios de se infiltrar entre nós. Será impossível conseguirmos isso com um ativismo vacilante, que hesita ao menor sinal de resistência e volta a balbuciar quando colocam armadilhas conceituais em sua frente. Autocrítica é algo muito bom, mas qual é o limite entre as críticas válidas que podemos fazer a nossas próprias atitudes e aquelas críticas mofadas oriundas da homofobia, que trazem junto vários preconceitos implícitos?


domingo, 16 de maio de 2010

Souvenir de Karlsruhe

(em exposição no "Mediensmuseum" de Karlsruhe, em fevereiro de 2009).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A composição do mundo

A composição do mundo é uma coisa estranha, meio fluida, viscosa, que vai circulando na veia. Como se todas as coisas fossem compostas unicamente das palavras que estão ao seu redor, e das que as compõem.

Aqueles arranha-céus que a gente vê nas metrópoles são palavras na vertical... o cimento que usaram pra construir eles são palavras moídas, bem misturadas e aplicadas, as moléculas do cimento são palavras nervosas, colidindo, agitando, em plena neurose termodinâmica de seu ser, e finalmente, no mais micro, do micro, os elétrons, os quarks, os fótons, os glúons são palavras bipolares, palavras que são e não são,  estão e não estão, vão e não vão, palavras difusas mas fundamentais.

O mundo e todo o resto é uma dança contínua de representação de palavras. Claro. Nem todas são faladas, ou escritas, há também as que se escondem, as que não se dizem, que se olham, gesticulam, pulam e se misturam em completo silêncio. E que não subestimemos o poder destas também, afinal (o deus mais importante e poderoso é aquele que domina o silêncio e tem poder sobre a loucura e a sanidade).

domingo, 2 de maio de 2010

Extremos da Paixão

(Caio Fernando Abreu)

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante, lá vem o amor nos dilacerar de novo."

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-
-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther
, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolosem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

domingo, 28 de março de 2010

Alguns Momentos.

Alguns Momentos de grande espiritualidade. De verdade profunda sobre vida e morte.

1) Livro do Saramago: "O Evangelho Segundo Jesus Cristo." 
(Uma interpretação humana à vida de Cristo). Saramago escreve a vida de Cristo como ela deveria ter sido... sem os horrores bíblicos. Precisamente no momento da Ressureição de Lázaro, chega Jesus e põe-se a fazer a ressurreição, quando interrompido por Maria, a Madalena:
"Ninguém merece morrer duas vezes."
...

2) Jesus "renegando" o nome do pai José, que em Jerusalem, tinha corrido a salvar seu filho e único, em nome de Deus, porque avisado que Herodes ordenara a sua guarda que fosse matando todos os bebês por causa de um sonho...
"O plano de Deus era sacrificar aquelas todas crianças pra me fazer viver?"

3) Quando uma vez no Rio Grande do Sul uma aluna de Chagdud Rinpoche matava formigas, foi avisada por Rinpoche que não deveria fazer isso. A aluna diz a Rinpoche que nnao tinha problema, porque ao fazer isso estava fazendo preces de que aquelas formigas renascessem em vidas mais afortunadas. E Rinpoche lhe remata,
"Você só deve tirar a vida de um ser quando estiver apta a devolvê-la..."

A Vida (2)

A vida é como ela é. E no meio de todas as bondades devem caber todas as tristezas. E no meio de todas as tristezas todas as bondades...

terça-feira, 9 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Was ich zu tun hätte...

"Als die Nazis die Kommunisten holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Kommunist.

Als sie die Sozialdemokraten einsperrten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Sozialdemokrat.

Als sie die Gewerkschafter holten,
habe ich nicht protestiert;
ich war ja kein Gewerkschafter.

Als sie die Juden holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Jude.

Als sie mich holten,
gab es keinen mehr,
der protestieren konnte."

Martin Niemöller.

domingo, 7 de março de 2010

Não esquecer que é tempo de morangos. Sim.



Um dia, e só um dia eu queria encontrar as respostas pra minha falta de esperança, as respostas do que pensar, pra onde olhar, como agir, o que julgar, o que não julgar, como fazer as pessoas felizes, como tentar ser feliz, o que fazer com todas as minhas paixões não resolvidas, o que fazer com todos os mal-entendidos, os mal-comunicados, os espinhos de sentimentos se cruzando se batendo se rebelando, um dia, só um dia eu queria entender, porque a gente é tão difícil, a gente é difícil pra tudo, até mesmo pra respirar...

Eu queria encontrar respostas pra falta de esperanças com urgência, mas só o que eu tenho é falta de esperança, e não é porque eu não queira ter esperança, mas mais porque me vazou, me escapou, me caiu, me desaguou, porque a esperança verteu pra fora, ou porque um componente que parece fundamental, que é a vontade de fazer as coisas, a vontade de tentar agir pra melhorar, eu não sei onde ela está. Melhorar o que. Não sei. Melhorar hoje, amanhã, melhorar minha relação com as pessoas, melhorar a relação das pessoas, melhorar o que se pode ser melhorado, e o que é que pode eu não sei. Melhorar a história, não ter que olhar pra miséria de fora como a miséria de dentro, não ter que olhar pros lugares, pras situações, não ter que olhar pra nossa realidade correndo, correndo e ter vontade de chorar, e ter um nojo, e ter uma dor tão grande, tão lacinante, tão apertada, tão, o que nós vamos fazer conosco, como é que nós podemos ser como nós somos. Como é que podemos ser isso conosco.

Quem tem falta de esperança não tem nada, não faz nada a não ser esperar, a não ser esperar que um dia ela volte. Esperar que ela volte, se acaba esperando, da mesma maneira como se os malvados do Ensaio do Saramago tivessem escondido o senso e o rumo na cegueira. Como se Blimunda a Sete Luas tivesse lido a alma e dito, deixa, este está vazio de vontades desde o começo, nenhuma nuvenzinha branca o acompanha, dele não posso coletar nada...

Quem tem falta de esperança não morre um pouquinho por dia.

Quem tem falta de esperança, só olha e consegue olhar a vida da ótica dos desesperados. Mais do que uma questão pra dramas, é uma questão semântica. Desespero não é todo o furor do desespero, mas é a ótica dos sem-esperança. Mergulhar no desespero em níveis homeopáticos ou quimioterápicos é quem caminha sem esperança todo dia, sem acordar e tentar ludibriar a própria miséria com palavras falsas, com sensações que não existem, com possibilidades iverossímeis. Mergulhar mais ainda na miséria própria, pela miséria dos outros, que uma não é diferente de outra, e elas conjuntas se encontram, na verdade, na verdade, não existe uma sem outra, como o dia sem a noite. Mergulhar na miséria é o reconhecimento do outro.

E me fica um gosto amargo de pensar que tudo isso que anda por dentro de mim, que tudo isso que anda por dentro de ti, por dentro de toda essa gente, essa que está ali fora, pronta pra acordar, representar, fingir, dormir, acordar, fingir mais um pouco, toda esta gente, tão vazia quanto eu e você, vazios, vazios, e sós, completamente solitários, como é que essa gente pode olhar pra si e pedir a margarina feliz no café da manhã, como é que essa gente pode jurar ter tanta estabilidade, e pra que estes juramentos inúteis... Pra que se o que tá andando dentro da gente é duro... é seco, é dor. É cãimbra. É úlcera se a gente deixa queimar sem falar nada. É câncer se não sai. É infarto se a gente ri e pede "com duas pedras de gelo, por favor". É assassinato se a gente cala à força. 

Tem a dor e a angústia de ser por dentro. Quem não tem, é porque não vive. Tem medo absoluto de fitar a si e se perder por lá, tem pavor de encontrar com a medusa, tem pavor porque vai olhar nos olhos dela e petrificar com a imagem especular de si. Não olha pra si porque não consegue. Tem portanto a maior angústia e miserabilidade de todas, a de representar pros outros, como todos nós fazemos, mas muito mais, representar pra si.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Esta sua opção.

"- Esta sua opção... 
  - Qual?
  - Sua opção, você sabe...
  - Não, não sei, qual?
  - Opção, por homens sabe...
  - Ah sim, o indizível, você diz: ser gay?
  ..."

E agora na moda eu escolhi ser gay. Sou safado e gosto de sofrer, por isso que eu escolhi ser gay. Também, bastante na moda que aceitar é uma opção, respeitar não.

Eu não entendo o que se quer dizer com "não aceitar".

Não existe nenhuma sociedade-sem-gays. Nenhuma sem-afeminados. A cultura cristã quer acabar com ambos. Eles dizem que não, mas o fato é que querem. E quanto às opções.
Entre ser gay e ser cristão, a única coisa que se pode escolher é ser cristão.

*(a única passível de escolha).