segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Seguidilha

Mas eu era mas eu era
o que não dissera:
revela-revela

chegoso' amor
da cor da dor

domingo, 4 de agosto de 2013

Sorteio das palavras

Jogo com começo-meio-fim. Truque na é sentido frase fazer. Palavras ordem sorteadas as são sem. Interpretar perde se se mas problema não há: sorteio é novo fazer um.

Amor

Visceral é o amor
certeiro no peito a faca crava
com força afunda recado à dor
o peito que se inocente era, deflorou

visceral é amar
amar sem amor pra
amar e se propor a amar
e se opor a mar
com fundo perdido
peito aberto ferido
esta imagem do outro, amar
amar-se sobretudo de espelho.
amar de mar balança em rebeldia
amor que é desobedecer.

Sou eu

Sou eu, o fracasso, bom dia. Um desajuste. Uma negação da inteligência. Sou o acontecimento obscuro, a face que não se quer mostrar, o que não se quer olhar. Há muita elegância em não se ser nada, repara. Há uma elegância irrestrita, que poucos atinge, a elegância do que é aparte. Do que não se integra. Mas se bem se pensa. Esta elegância é toda nossa. É tudo o que temos. De nos sentirmos fragmentados em pequenos pedacinhos incomunicáveis. Entre si e com os outros. Mas não era isso. Era o desajuste. Não há grande coisa em se sentir um desajuste. Em não fazer nada. Em não vencer na vida (como é que se vence na vida? Seria caso de ler verbete em dicionário: "vencer na vida"). Qualquer um faz isso em tentar não fazendo nada. Não faço nada. E não achei a elegância nisso. O truque é contudo tentar ansiosamente e falhar. Aí está.
Dizemos ainda, contudo... tentar e falhar, é fácil também qualquer um o faz.
Bom então a pequena elegância esteja em seguir tentando e falhando. Mas é coisa de quem está predisposto a respirar, seguir tentando. Oras. Me escapou a beleza... Porque acabo vendo que... naquilo que me era único, que eu era diferente... é o que todos somos iguais.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eu e você

Se meu pesar é o seu.
Se minha tristeza é a sua.
Se o meu maior choro é o seu.
E você continua
achando que somos diferentes?
E você continua
achando que estamos longe?

Se minha alegria é da sua.
Se minha vida é mera cópia da sua.
Se meu sentimento é o seu.
E você continua
achando que não me importo?
E você continua
achando que estou alheio e gosto?

Não é. É apenas diferente. Diferente
como eu não posso explicar.
Diferente como o caminho seguiu.

Mas...
se olha pra mim e vai chorar.
E eu não faço nada.
Repara.
É porque se destruiu o meu coração.
Não porque ele não está ali.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dos gêneros

Imaginemos então que... não só o cristianismo, não só o platonismo, não só a aristotélica mas toda a teoria dos gêneros que herdamos até hoje, seja o resquício do socrático-platônico. Imaginemos que a divisão entre o masculino e o feminino, entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, o ser e o não ser, são todos colocados em termos de ambivalências linguísticas. Porque o que não é masculino é feminino e vice-versa. O masculino e o feminino eram Deus e o Diabo (nesta ordem) e se consolidaram assim. Ou talvez, eram o que é bom e o que é mal (também nesta ordem), o que pecou e o que foi enganado pelo pecado. Pra ficar mais fácil, depositamos em qualquer uma destas categorias, toda a alegoria sentimental que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda representação de mundo que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda metáfora que exprima-se o corpo e para além dele: ou é masculino ou é feminino.

Qual é o sentido deste barulho que fazemos contra e a favor dos gêneros... Se, a bem da verdade, estes gêneros que estão aí colocados dicotomicamente, e que se impoem para modelar outros gêneros, são de fato ainda, o resultado de um pensamento único, um pensamento que nos prende há milênios, uma dicotomia sobre o discurso?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

E se

você sair do armário baby... o mundo inadvertidamente te empurrará de volta pra lá em todas as situações em que você disser:"Oi, como vai?"

domingo, 23 de junho de 2013

Epifania da Picardia no Brasil

O maior e único homem rico, trilhonário, do mundo aparece na varanda de sua mansão. Concentrara toda riqueza, por assim dizer, desde que se tem notícia. Diz-se que mandou matar certa vez um reporter que lhe perguntou umas coisas obscenas. Dizia-se ainda que sua fortuna era capaz de cobrir uma cidade de ouro até a altura do himalaia.

Ao responder à pergunta, "mas o senhor não tem vergonha de deter toda riqueza do mundo, enquanto todo o resto morre na miséria completa?", afirmava o trilhonário:
- De maneira nenhuma. Esta pobreza já estava aí há séculos. E minha fortuna... eu a herdei de meus pais.

Uma pausa pra respirar e rematava com classe:

- E eles herdaram dos pais deles e estes por sua vez de seus pais...
E todos trabalharam muitissimamente pra conquistá-la.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Abramovic 2

Então é isso.

O encontro entre Marina Abramovic e Ulay, 20 anos depois é a explosão de uma supernova. O lugar em que tudo acontece e nada pode ser explicado, onde a linguagem se perde... é um exercício de absoluta presença. Presença nas sensações, dores, lembranças, momentos terríveis, presença na última caminhada. Presença num eterno, a presença no desistir de se encontrar a resposta.

É perfeitamente o desistir de se encontrar a resposta.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Espólio

Licença poética para dizer, sobrou um nada sobrou.
Licença poética para dizer que fomos um fomos nada.
Licença poética para dizer que juntos sonhamos nada.
Licença poética para dizer que desculpa pelo que sou nada.
Licença poética para dizer pela falta que me fez nada.

Peço licença poética finalmente para dizer ao senhor que todo meu sentimento, senhor doutor, foi um grande nada.

sábado, 16 de março de 2013

Uma volta

"Jogue a cópia da chave
Por debaixo da porta
Pra não ter motivos
Pra pensar numa volta...

Fique junto dos seus
Boa sorte
Adeus..."

Morri hoje quando li isso...