quarta-feira, 20 de abril de 2016

Preghiera

Nossa senhora da Butterfly, dos amores desesperados-extraviados-estraçalhados-naufragados, valei-me.

sábado, 16 de abril de 2016

Diálogo

Quem está disposto ao diálogo, pagará com o próprio corpo!

(Estamos oferecendo isso a vocês, nosso próprio corpo,
que é tudo que temos, e que temos certeza não os podem
tomar para si, podendo no máximo tirá-lo de nós).

Quem está disposto ao diálogo, perderá completamente o juízo e será torturado.
Quem está disposto ao diálogo, pode pagar com a vida.
Quanto a quem não está disposto ao diálogo... é porque já está morto.

Coragem!

terça-feira, 15 de março de 2016

Gilda

Cansado da Gilda do Rigoletto, soprano coloratura, parece que a história de uma mocinha docinha, frágil, feita pra casar com um varão bíblico. Patriarcalismo maior não tem... 

Então vamos lá, porque não Gilda, soprano dramática, loka da b***** e da paixão, tão loka por um traste insuportável disposta ao suicídio? Força, dramaticidade, loucura, paixão, extremismo mais do que candura ao papel, no caso... Chega dessas Gildas "Nathalie Dessay, Diana Damrau, Lily Pons, Edita Gruberova..." Queremos ver sangue, queremos vibratto estridente...

Mas aí acabei descobrindo que ando 70 anos em atraso, talvez não em representações do feminino, mas em produção da ópera efetivamente.


Bravo Toscanini.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ponteiro

Dormir,
algo na noite escura
cama debruça
o tempo negocia
mais tempo
escorrem os últimos sonhos
passam apressados
sem muita forma
meio ao acaso
nem lirismo
qualquer resposta
toca trim, trim

Rencanto.
O tempo (é o despertador)
boceja nosso corpo
preguiçoso
sem saber se leva ou não
recosta indeciso
o que fazer hoje.
Tolo.

Uma silhueta
Arranca de seu peito,
coração na mão
tempo ensanguentado.
Enganado.
O golpe, o dá
revela
uma madame perfumada
de nome destino.

Risco de vida

me anunciaram de manhã
risco de vida:
porque estou cheio de palavras
entupimento curricular
escrevo
descendo a encosta
coli(u)na desalinhado(a)
trôpega, irregular
cambaleia.

acabei meio surdo
de vogais semivogais
e ando meio farto
de vozes meia-voz
de tempos em tempos
infarto.

Risco

Frase riscada,
marca-passo
Parado
Amaldiçoada

Passo marca
faz, faz
o tempo,
desfaz.

Tempo faz
o próprio desfaz
ritmo
lento

de próprio
tempo
a métrica
estática.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Só-apenas, sozinho-só

Já se pode sentir só, sim, sim, sentir-se Só,
Só se pode sentir só, sim, sim, sentir-se Só, Só, só
brio sentir-se Só, em
bria
gado mal
trata
dó sem dó Só-só,
sem ninguém estar só,
Só se pode sentirem só
vincados de desejos sós
de nuvens de margaridas, de pó
sentindo Ssó.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A mentira da Preguiça

A maior mentira de todos os séculos é a mentira da preguiça.
Preguiça é uma palavra mentirosa e poderosa. Quando a palavra preguiça é dita em voz alta, mais propriamente, quando o fulano diz para o cicrano 'a sua preguiça', junto com ela vem um véu de mentira que esconde vastas coisas por 5 ou 6, ou talvez mais séculos (pra nós são 5).

A mentira da preguiça foi contada aqui pela primeira vez por portugueses quando chegaram ao nosso subcontinente. Porque foi o europeu que disse neste português que escrevemos, ele disse sub, e naquela época sub se chamou, e sub ficou, já pensamos desde cedo, sub que somos, acometidos no espaço pequeno de ser sub. Indolentes.

Pra justificar a superioridade dos que não tem natureza indolente e preguiçosa, criar contraposição, os preguiçosos, índios. Daí seguiram com os preguiçosos negros. Depois, bem depois, nasceu também os preguiçosos brasileiros. Hoje além destes todos a gente tem também os preguiçosos pobres, é claro. Os ricos como sabemos são árduos trabalhadores e meritocraticamente-eticamente entitulados à sua fortuna por seu bom trabalho e de seus descendentes diretos ou indiretos. "Sim, tem tudo isso, toda esta riqueza, mas trabalhou sabe? A vida inteira por três turnos, quatro se deixassem. E a família toda é assim." A mentira da preguiça limpa bem as consciências dos que não conseguem justificar riqueza. Uma vassourada bem trabalhada.

Ou podemos dizer "esta gente misturada, preguiçosa", fazendo apologia a todas estas quatro imagens-figuras, com incrível poder de síntese.

Na história, a ordem cronológica do aparecimento dos preguiçosos variou do supracitado, mas hoje nos é claro este quadro. É claríssimo aliás. Quando a palavra preguiça é dita, junto com ela segue o rabo: "índio-preto-brasileiro-pobre", nesta ordem de imagens talvez. Isto é tão poderoso que mesmo com 500 anos de história contadinha-vividinha em dias-e-dias-e-dias mais de 170 mil, milhões e milhões de horas de milhões e milhões de brasileiros conversando num imenso continente, um barulho inexorável capaz de pagar qualquer ideia forte que seja, poderíamos dizer, mas esta mentira é tão poderosa e tão forte que 500 depois continua sendo a primeira imagem que surge pra gente quando a gente conta nos dedos a preguiça. 

É de estória em estória, de jargão em jargão, de tradição em tradição, transmitida de pai pra filho, filho pra neto, bisneto que a emoção nos é passada... As palavras vão girando, girando, girando umas nas outras ao longo dos tempos, e vamos ministrando bem essa oração.

A mentira da preguiça da natureza indolente é dominante, gostosa,  mantenedora de status quo. É aquela que diz que a natureza das pessoas, AQUELAS pessoas é a indolência e a preguiça, aquela que fundamentalmente se usa deste argumento para gerar dominação: social, trabalhista, capital, sentimental, psicológica, religiosa.

(A preguiça também se sofistica em certos círculos sociais com certo requinte ou não. Você precisa ser mais pró-ativo. Sair da sua zona de conforto. Precisa ser criativo. Fracassou? Não tentou com suficiente aplicação à causa, não dedicou horas/dias/semanas/meses/anos suficientes. Ainda hoje corre nas ruas uma também de que "é só se esforçar que você vai chegar lá". Dizem que é uma preguiça do capital.) 

Que preguiça eu tenho do capital. Preguiça capital, de tudo isso, preguiça daquelas de se afundar no sétimo inferno de Dante.

Sugiro escrever a palavra preguiça sempre riscada daqui por diante com o comentário "mas é mentira tá gente?" em tamanho de fonte de nota-de-rodapé. 

Porque afinal de contas com tantos monstros andando no meio da gente há tanto tempo. E precisamos rir com coletividade deles com um gosto-gostoso um sabor docinho-azedo, de nossa preguiça. Porque quem precisa dar nome à preguiça, quem precisa negar preguiça, quem precisa "eu não sou preguiçoso", quem precisa "porque el@ é preguiços@". Este desespero, quem precisa, precisa para criar dominação e exclusão. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Exclusão

A exclusão exclui a si mesma.

sábado, 3 de outubro de 2015

História Curta

(Esteja a força desses poemas
na mesma altura da violência que o gerou
não estando a seu par,
esteja a lembrança para
um réstio duradouro de vida.
Que lute contra esta violência
que nos vai comendo por baixo
sem que a percebamos.)

Um estranho andar funesto
vai marchando, cortejo afora
preso em consciências nodosas.
a chuva acompanha pela rua.

Era já tarde quando passava
em ritual carro condolente,
o que ali ia não se pronunciava,
fluía o contínuo silente.

Não se soube quando
começou a vida a vazar
fora dos corpos terminando
a por completo os deixar.

Sucedeu quando, leu-se epitáfio,
a cidade ainda dormente
levantava findo o crepúsculo.
Uma agonia crescente.

Era crime de ódio
disse uma multidão alvoroçada.
Um olhar penetrou os jovens:
fez a cena revelada.

Não era ódio o motivo
de ardente estupor.
Sobre os corpos em alívio,
o crime era de amor.

De pouca memória dada

um pouco tempo que se 
para amar tiveram.
Dois jovens, nudez estirada.

Vão ali e aqui descansando
Esturricados balançando
No espaço corpóreo armado
espesso o pesar derramado.

Estranha a fruta da árvore

Sangue nas folhas, sangue na raiz,
sangue sobre tudo que se diz
corpos pretos sob a brisa e mais nada.

Dois são os jovens em silêncio
omitidos das páginas escritas
Juvenal diriam é o nome deste.
Aquele de nome Juvêncio.

Seriam outros seus nomes talvez,

real-nomes, nomes da vida
santificados seja o Vosso nome
venha a nós...uma história repetida

Corpos de presença absoluta
Deusa dos jornais de tanto amor,
morte e mesmo esplendorosas fotografias  
em vermelho tingido de ardor.

Não se ouviram sacerdotes
não se lhes prestam homenagens
não se lhes breve recitam
"homens honestos que foram".

Não se lhes prestaram honrarias
Não se lhes rendem bajulações
Apenas sozinho na rua fúnebre
o séquito do carro pingando seguia.

Uma hisória desimportante.

Espero. Espero. Espero. O dia em que ele virá. Virá feliz, muito feliz pra mim, ao meu encontro, espero a feliz vinda, com boca cheia me dizendo, "minha pequena borboleta, pequenina jovenzita, minha pequena, meu perfume de verbena..." me gritará ao chegar. Estou, respondo. Perfume de verbena, o nome que ele me chamava quando tava aqui... Há um grande tempo eu espero, uma longuíssimo tempo, mas não me pesa. Guarda o medo... Faço a espera com segurança.

Voltará, sim, diz comigo agora, diz, voltará. Sim voltará... Diga comigo.
Não me pesa esta grande espera, tenho cá grande esperança no coração, uma fé, ele volta. Espero o primeiro encontro,"Minha pequenina mulher, meu perfume de verbena..." me gritará preocupado, "estou", respondo.

Estou em minha cama, ligo a luz, ele vem hoje, sei que vem. Os trens chegam duas vezes ao dia, o que chega à noite eu já o escuto glin glin glon, sim ele está próximo... A noite, todas as suas tristes horas cada qual mais triste que a próxima, só uma delas feliz, a de sua chegada.

Alguém vem, alguém bate na porta, me chama pelo nome, corro esbaforida, sim, deve ser ele  que chegou, gekummen, gekummen, gekummen.

Vou ao seu encontro, ao seu encontro, estou ao seu encontro. O encontro. É o demônio das águas. Meu tudo, minha vida, cego de amor, corro ao teu encontro, me jogo no teu braço. Te beijo, te mordo te quero. Morro. Morro de maldição, amaldiçoado eu, amaldiçoado você, demônio das águas. Iechibaba a nos amaldiçoar, tu porque me deixou por outro, eu porque me sacrifiquei por ti, Iechibaba não nos libertará. Te beijar, te agarrar, te abraçar e morrer. Agradeço o encontro, agradeço esse momento, agradeço o amor, ter experimentado esse pequeno amor em tão pequeno tempo em tão pequeno espaço, tão por acaso. Esse amor que já se foi. Selo tudo com o sacrifício, encomendo sua alma a Deus, viro o demônio da morte das águas, a morte do amor.

Iechibaba me transformou. Sou uma Bludicha, demônio nas águas. Atormento os seres, tiro-lhes dessa ilusão de amor. Ensino-lhes que todo sacrifício é fútil, vão.