segunda-feira, 19 de julho de 2010
Mozart, Mozart, Mozart
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O real oral
De, deu, Deve
Devir, de vir, desvir, deve vir, dever vir, de viver. desviver,
desviuvar, desviar ver, desviar a ver, desvirar a ver, desvirar a Vera,
desvirar a Pedra, desvirar a vereda, desvirar a verdade.
CONCRETO.ABSTRATO.CONCRETO.ABSTRATO.
CONCRETO.ABSTRATO.CON-CRETO.AB-STRATO.
Um, dois, três, quatro, rimas, palavras,
ajuntamentos, substantivos, abnominal,
gramaticías, poemas, livros, verbandeids,
línguas, musculatória, cronormal.
Gonorréico.
Compaixão
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Morre Saramago
"(...)Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando
de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par
em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca,
e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o
meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência.
Então Jesus compreendeu que viera trazido ao
engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua
vida fora traçada para morrer assim desde o princípio
dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue
e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar
toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria,
Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que
fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava
em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros
e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as
perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda
havia nele um resto de vida quando sentiu que uma
esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios,
e então, olhando para baixo, deu por um homem
que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já
não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde
o seu sangue gotejava."
sábado, 12 de junho de 2010
Epifania do Amor
segunda-feira, 31 de maio de 2010
O Poema que Morreu
Tudo indicava assim.
E o coitado do poema, estirado,
era coceira na curiosidade pública.
Chegou o delegado
- e cismado -
foi tecendo em pensamento
as inconstantes formas da dúvida.
Uma interrogação passeava ali.
Crescia e engordava
- proporcional -
a cada pessoa que parava
na pele da já recém formada
multidão.
Não demorou muito e apareceu o legista.
Ele era meio esquisito,
tinha tique nervoso
e coceira na vista.
Examinou o já lido poema
e constatou o consumado fato:
- Morrera de amor, não de infarto.
Suicídio? Assassinato?
Quem faria o fatídico ato?
- Quem ??? perguntava o delegado.
E com um ar sherloquiano
pegou o morto nas mãos.
Sob os olhos atentos da multidão
exclamou a primeira descoberta:
- Não era amador o assassino, era poeta !
“Poeta ?” Indagou a multidão incrédula.
- Poeta! Confirmou alisando o imeeeenso bigode.
Chegaram então os repórteres,
a lavadeira,
o bêbado ainda de porre,
a dona Julieta, o doutor Onofre,
e todos, do sul ao norte,
mastigavam a mesma pergunta:
“Um poeta, mas como é que pode ?”
- Simples! - Explicou o delegado...
A tristeza, num homem apaixonado,
dói além do sustentável.
No peito, abre um buraco.
Tanto insiste
que não resta escapatória,
com o dedo em riste,
atrás da porta,
persiste o crime.
A arma utilizada
não foi revólver,
não foi faca.
Foi um sentimento amargurado
delineado no papel
por uma caneta esferográfica.
Já a paixão - continua -,
foi a vítima,
de vez esquecida,
varrida,
morta.
Não é caso de polícia.
por aí morre um amor por dia,
é uma palavra prolixa, doída.
Dor nenhuma deve virar notícia,
fez bem o poeta em matar essa paixão.
E terminou largando o poema no chão.
Seguiu em frente, sumiu na multidão
que por sua vez se desfez
com a mesma rapidez
que se formou.
Mas do vazio que ficou - dilacerado,
permaneceu solitário
um adolescente
com os olhos molhados
e uma caneta na mão.
Em passos lentos, assimilados,
aproximou-se do poema
no chão largado
e guardou no bolso
a história do amor
que minutos antes havia escrito,
e por qualquer descuido
perdido...
Ricardo França
