sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mais uma da Sétima Sinfonia.

Tenho nas mãos uma inépcia colossal.
É uma vontade dolorosa de expressar tudo que me passa. Todos os pensamentos. Todas as sensações. De que o mundo venha a saber tudo que tenho por dentro. Não me importa que não seja grande. Não me importa que seja tudo efêmero e passadio. Pra mim, um só pensamento de compaixão é capaz romper a linearidade do sofrimento. Sofrimento mesmo que é linear porque acontece de ciclos e ciclos que se revezam.

Mas me dôo nisso também porque... não é possível transmitir com palavras tudo isso... não é possível transmitir a dor... nem a compaixão que surge de se perceber todas as pessoas ou seres que sentem a mesma coisa, ou parecido, naquele mesmo momento, juntas gritando, ou nos segundos que passaram anterior àquele momento, nas horas, dias, anos. Que surge de perceber todas as pessoas que lutam em desespero qualquer que seja ele (mental, psíquico, físico, psicológico, se é que uns não se misturam com outros) pra se livrarem do sofrimento, as que estão em desespero desesperado, as que nem tanto. Também as que nem se apercebem, mas estão ali ansiosas e nem se sabe direito pra que. Nem elas sabem, nem nós sabemos.

Minimamente que seja o desespero da passagem das horas... De um bardô de vir a ser. Tudo que sempre vem a ser, e que deixa intacto as histórias do que poderia ter sido. Mas não foi. Um bardô tricotado, cuja sombra é a história das possibilidades... se delineia sobre o tempo que passa e ao redor lusco-fusco de resto... que não chega a acontecer.

E a intrasponibilidade...
Não é possível transmitir a alegria imensa de escutar a sétima Sinfonia de Beethoven. Isto está além da minha conjugação verbal. Porque todas as palavras juntas estão sempre aquém do que o que somos. Nem todas as frases possíveis de palavras combinadas de todas as línguas já acontecidas são capazes de significar uma sequência de acordes da Sonata Waldstein...

Talvez porque frases de palavras sem sentido e que cheguem diretamente a nós sem passar pela demanda de entender ou não, mas de apenas 'um arrepio', estas é que estão mais próximas do real. E que podem portanto significar alguma coisa preciosa. (Um contrasenso claro, o de só poder significar algo valioso quando se perder um pouco do sentido).

Fico completamente a mercê da imperfeição das formas de linguagem (pelo menos da minha)... Da não transliteração do real. Me encontro com o real cada vez que choro, e choro por muita coisa. Me encontro com o real neste exato instante fugidio, que deixou de ser, no instante em que escutando as violas, violinos, cellos e baixos marcando uma tristeza profunda, que mistura morbidez, sentimentos agudos, medo, dor de morrer assassinado, do segundo movimento sempre sereno (ah... a sétima Sinfonia...). Beethoven.
Então todas as palavras se dissolveram, sobrou só uma nuvem de limbos conceituais.

Infelizmente o encontro com o real não pode ser previsto. Claro que isto não é novo.

Citando Lacan em sua lucidez incisiva, diretíssima, felizes são os que são capazes de se encontrarem com o real e não ficarem presos a esta experiência, na tentativa frustrada de transliteração. Na prática, essa tentativa frustrada é a de aprisionar o real, ficar com ele.

Ou citando Isolda antes de morrer, "In des Weltatems, wehenden All, ertrinken, versinken, unbewußt, höchste Lust" (Na respiração do mundo, no todo que sopra, para se afogar, afundar, inconsciente, o êxtase supremo).

É fato que antes do encontro com o supremo desejo (ou com a suprema benção, inconsciente) no qual ela afunda, ela teve que gritar. Teve que enlouquecer sozinha, percebendo que estava chegando a loucura e sozinha "Freunde! Seht! Fühlt und seht ihr's nicht? Hör ich nur diese Weise, die so wundervoll und leise, Wonne klagend, alles sagend, mild versöhnend, aus ihm tönend, in mich dringet, auf sich schwinget, hold erhallend um mich klinget?" (Amigos! Vejam! Vocês não sentem, não vêem? Sou a única a ouvir, o que tão doce e maravilhoso, lamento encantado, que diz tudo, suave bonança, que ressoa dele, me atravessa ecoando abençoada, e soa ao meu redor?). Que o coração corajoso do Tristão teve que lhe atravessar "Wie das Herz ihm muttig schwillt, voll und hehr im Busen ihm quillt".

Depois de tudo isso, e só depois "höchste Lust" (êxtase supremo). E cai Waltraud Meier, a Isolda.
Soam-se os últimos acordes, harpa, violinos e sopros, o pano fecha. Brava.

Morangos Imaginários




O varal caía.
Caía, dormia, dormia.

Noite cálida. Gélida.
Dormente no pescoço. Torcida.
Goooooooollllllllllllll
from thermodynamics

Imperativo no singular.
acht auf, acht auf.
Óculos miopíssimos.
Era um tal astigmatismo de pleura.
Melodia.

Quem sou eu atualizado?
agnus dei de mail, plim
Umidificador na promoção,
álbum por ano.

Vector-type perturbation
é o erro de algo perdido no meio.
alemão, porque não?
ifort mqnsch.f ./a.out

Igo, faltou luz e o computador desligou.
Assinado: Pai.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Índice


O essencial incorruptível, inigualável, inquebrantável, invísivel, imaculável, incomunicável, inexorável permanece apenas. Ao essencial não se alcança.

Index cristão contra demônios, bruxas e salamandras.

Não quero chegar lá.
Não quero fazer diferença.
Não quero ser único.
Não quero ser alguém na vida.
(Poderia ser alguém da vida).
Não quero me encontrar.
Não quero ser alguém mais que ser mais alguém.
Não quero me tornar melhor.
(Nunca fui melhor do que o que sempre fui.
Nunca serei melhor do que o que sou.
E nunca seria melhor do que o que apenas sempre pude ser.)
Não quero céu que é só pra nós.
Não quero achar.
Não quero desejos obedientes.
(que consiga pelo menos o desejo ser,
calor e doença que não se possa ver
imagem desvirada deu(m) meu eu,
que não deixou pra depois de enlouquecer,
a vida que real só como escrita correu)
Não quero cotas de tapas nas costas.
Não quero poder que não é orgânico.
Não quero a chave de casa.
Não quero entrar.
Não quero exausto de quereres.

Apenas estou por ali. Só quero é, deixem queimar no meu enterro. Uma fogueira pra iluminar, é isto.

Tenho muito sangue andando por aí nas minhas veias.

Romeu e eu

(conto dialético e, ipso facto, poema romântico) [1977]

Eu quero brincar com você.
Papai não deixa.
O Diretor proíbe.
A Esquerda se opõe.

Você me chama
e eu morro de vontade.
Papai me ameaça.
O Diretor me intima.
A Esquerda me aterroriza.

Saio escondido,
procuro por você,
mas eles me acham.
Papai me bate.
O Diretor me põe de castigo.
A Esquerda atenta contra mim.

Fico esperando,
você me procura,
nos encontramos no escuro,
nos pegam em flagrante.
Papai me expulsa.
O Diretor me interna.
A Esquerda me seqüestra.

Escapo e sobrevivo,
mas você não está livre.
É filho de seu Papai.
Disciplinado ao seu Diretor.
Prosélito da sua Esquerda.

Vivo solitário, você prisioneiro,
e não podemos brincar.
Castram nossa infância
porque você é igual a mim,
sua vontade igual à minha,
mas nos fazem diferentes.

Glauco Mattoso

domingo, 5 de setembro de 2010

Ganas nas mãos.

Tenho ganas nas mãos, tenho ganas nas mãos.


Tenho ganas nas mãos,

ganas de sangue correndo

vermelhas arfantes ardendo


Tenho ganas nas mãos

ganas de novas estradas

sinuosas curvas molhadas


Tenho ganas nas mãos,

ganas do tempo passado,

furiosa corrente movendo...


Tenho ganas nas mãos,

ganas e uma guerra pra dentro

me mudam de fogo por vento


Tenho ganas nas mãos,

ganas me estrangulando a vida

de mortos desmisturando vivos


Tenho ganas nas mãos,

ganas que cunham palavras

juntas desfilam derramadas


Tenho ganas nas mãos,

ganas que estraçalham a pele

juncam feridas a pó


Tenho ganas nas mãos,

ganas de ir pra casa,

pra me escrever de solidão


Tenho ganas nas mãos,

ganas de amores mal-resolvidos

ganas de sofrer enlouquecido


Tenho ganas nas mãos

ganas de um cheiro de chuva

ganas que são só uma... esperança.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mozart, Mozart, Mozart

Mozart, Mozart. Meu tudo, minha vida, minhas melhores sensações, meu eu de abismo: Mozart é ollhar pra dentro no abismo escuro e se jogar caindo de risada e bailando com gosto.

Brindemos à música de Mozart, sem o que tudo estaria perdido, os dias seriam trevas.
Brindemos a música de Mozart, que ela transcenda todos os próximos milênios.

Mozart, Mozart, Mozart. Forever Mozart.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O real oral

De, deu, Deve

Devir, de vir, desvir, deve vir, dever vir, de viver. desviver,

desviuvar, desviar ver, desviar a ver, desvirar a ver, desvirar a Vera,

desvirar a Pedra, desvirar a vereda, desvirar a verdade.


CONCRETO.ABSTRATO.CONCRETO.ABSTRATO.

CONCRETO.ABSTRATO.CON-CRETO.AB-STRATO.


Um, dois, três, quatro, rimas, palavras,

ajuntamentos, substantivos, abnominal,

gramaticías, poemas, livros, verbandeids,

línguas, musculatória, cronormal.


Gonorréico.

Compaixão

Talvez a compaixão seja pois, desistir de tudo. Significando: deixar as idéias que se tem como verdades as mais profundas, suspensas. Desistir delas. Pairar.

Há um ponto em que o mundo das idéias além de imaterial é intangível e sobretudo incomunicável. Pois sendo incomunicável reside na compaixão, desistir de tudo. Ipso facto: silenciar quando não se pode comunicar.

Essencialmente a mais pungente das desistências é a de consertar o mundo. Porque consertar o mundo é sempre criá-lo à imagem do sujeito que o conserta. Tirania, que destrói.

É custoso e temerário desistir. Custoso porque não se pode medir o esforço. Temerário porque exige coragem além de qualquer outra ação. E mais sumariamente, porque se deve desistir, não senão (e absolutamente apenas) no momento certo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre Saramago

Saramago morre. Morre e já deixa a vida.

Uma tristeza enorme me acompanha no funeral de José, o Saramago, o escritor mais humano do último século, que lutou e usou de toda a sua genialidade, de toda clareza intelectual que possuía contra o totalitarismo, contra o fanatismo, contra a miserabilidade, contra o mal do espírito que não cabe no bolso, contra o assassinato das consciências individuais.

Sinto-me como um pedaço arrancado do peito. Disse Fernando Meirelles que o mundo ficou mais burro e mais cego. 

Contudo, muito mais grave que isso, o mundo ficou mais selvagem, menos humano, menos reflexivo e mais propenso ao autoritarismo. Autoritarismo, genético, este que Saramago sempre escancarou nos seus livros a dizer: toma cuidado, assim é que somos.

É uma tristeza imensa continuar no mundo sem Saramago, Como se uma consciência poderosa e grandiosa, uma consciência sutil e sensível se apagou de repente. Dói sim, bastante.

Despeço-me dele, e fico órfão, já que Clarice e Caio Fernando há muito não estão por aqui, com um trecho comovente do "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (cuidado, trecho do final do livro, não recomendado para os que não leram ainda), como muitos outros em todos os livros que li dele. 

"(...)Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando 

de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par 

em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, 

e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o 

meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. 

Então Jesus compreendeu que viera trazido ao 

engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua 

vida fora traçada para morrer assim desde o princípio 

dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue 

e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar 

toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, 

Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que 

fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava 

em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros 

e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as 

perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda 

havia nele um resto de vida quando sentiu que uma 

esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, 

e então, olhando para baixo, deu por um homem 

que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já 

não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde 

o seu sangue gotejava."



sábado, 12 de junho de 2010

Epifania do Amor

Eu nunca vou te abandonar.
Eu nunca vou     abandonar.
Eu nunca            abandonar.
     nunca             abandonar.
                           abandonar.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Poema que Morreu

Um assassinato.
Tudo indicava assim.
E o coitado do poema, estirado,
era coceira na curiosidade pública.

Chegou o delegado
- e cismado -
foi tecendo em pensamento
as inconstantes formas da dúvida.

Uma interrogação passeava ali.
Crescia e engordava
- proporcional -
a cada pessoa que parava
na pele da já recém formada
multidão.

Não demorou muito e apareceu o legista.
Ele era meio esquisito,
tinha tique nervoso
e coceira na vista.
Examinou o já lido poema
e constatou o consumado fato:
- Morrera de amor, não de infarto.
Suicídio? Assassinato?
Quem faria o fatídico ato?
- Quem ??? perguntava o delegado.

E com um ar sherloquiano
pegou o morto nas mãos.

Sob os olhos atentos da multidão
exclamou a primeira descoberta:
- Não era amador o assassino, era poeta !
“Poeta ?” Indagou a multidão incrédula.
- Poeta! Confirmou alisando o imeeeenso bigode.
Chegaram então os repórteres,
a lavadeira,
o bêbado ainda de porre,
a dona Julieta, o doutor Onofre,
e todos, do sul ao norte,
mastigavam a mesma pergunta:
“Um poeta, mas como é que pode ?”
- Simples! - Explicou o delegado...
A tristeza, num homem apaixonado,
dói além do sustentável.
No peito, abre um buraco.
Tanto insiste
que não resta escapatória,
com o dedo em riste,
atrás da porta,
persiste o crime.
A arma utilizada
não foi revólver,
não foi faca.
Foi um sentimento amargurado
delineado no papel
por uma caneta esferográfica.
Já a paixão - continua -,
foi a vítima,
de vez esquecida,
varrida,
morta.

Não é caso de polícia.
por aí morre um amor por dia,
é uma palavra prolixa, doída.
Dor nenhuma deve virar notícia,
fez bem o poeta em matar essa paixão.

E terminou largando o poema no chão.
Seguiu em frente, sumiu na multidão
que por sua vez se desfez
com a mesma rapidez
que se formou.

Mas do vazio que ficou - dilacerado,
permaneceu solitário
um adolescente
com os olhos molhados
e uma caneta na mão.
Em passos lentos, assimilados,
aproximou-se do poema
no chão largado
e guardou no bolso
a história do amor
que minutos antes havia escrito,
e por qualquer descuido
perdido...

Ricardo França