sábado, 16 de novembro de 2013

Barulho

Tanto barulho por nada.
Nada. E o barulho que fazem.

Barulho, barulho, barulho. Só barulho, mais nada.
Barulho e passa. Silêncio.

Muito barulho e mais nada.
Depois do barulho, nada.

Salto ortonormal.

Tinha o salto alto e tinha o salto normal. O bolo diet e o bolo normal. O chocolate light e o chocolate normal. O top sundae e o sundae normal. A cobertura extra ou a cobertura normal. O apartamento (não a cobertura) grande e o apartamento normal. O cachorro manhoso e o cachorro normal. A personalidade problemática e a normal. A emblemática e a normal. A soturna e a normal... a sorridente e a normal.

Era normal.

E você, coca zero ou coca normal? Fanta, meu querido, é claro...

Porque sim... de perto, bem de perto o normal era pra dizer tudo aquilo que não era... Era um abuso de tudo que se queria contrapor apenas (e que, ao se contrapor ganhava a fama: normal) e não aceitava a diferença.

domingo, 25 de agosto de 2013

Experiências

Algumas experiências são deste tipo: não sei onde me começo e onde me termino. Em algumas experiências, uma subjetividade intensa nova violenta o corpo, rasga-o, o destrói, o corpo acostumado com o repousar em seu subjetivo. Entra à força, abrindo caminho qual animal selvagem no debandear da manada.  Que no fim se diz, alguma coisa ficou a mais em mim (e está independente da pergunta se gosto, se quero e o que é). Algumas experiências, aquelas em que ter controle de si sumiu.

Há neste momento algo em mim. Algo que, parece, terei de vomitar. Ou não sairá.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Seguidilha

Mas eu era mas eu era
o que não dissera:
revela-revela

chegoso' amor
da cor da dor

domingo, 4 de agosto de 2013

Sorteio das palavras

Jogo com começo-meio-fim. Truque na é sentido frase fazer. Palavras ordem sorteadas as são sem. Interpretar perde se se mas problema não há: sorteio é novo fazer um.

Amor

Visceral é o amor
certeiro no peito a faca crava
com força afunda recado à dor
o peito que se inocente era, deflorou

visceral é amar
amar sem amor pra
amar e se propor a amar
e se opor a mar
com fundo perdido
peito aberto ferido
esta imagem do outro, amar
amar-se sobretudo de espelho.
amar de mar balança em rebeldia
amor que é desobedecer.

Sou eu

Sou eu, o fracasso, bom dia. Um desajuste. Uma negação da inteligência. Sou o acontecimento obscuro, a face que não se quer mostrar, o que não se quer olhar. Há muita elegância em não se ser nada, repara. Há uma elegância irrestrita, que poucos atinge, a elegância do que é aparte. Do que não se integra. Mas se bem se pensa. Esta elegância é toda nossa. É tudo o que temos. De nos sentirmos fragmentados em pequenos pedacinhos incomunicáveis. Entre si e com os outros. Mas não era isso. Era o desajuste. Não há grande coisa em se sentir um desajuste. Em não fazer nada. Em não vencer na vida (como é que se vence na vida? Seria caso de ler verbete em dicionário: "vencer na vida"). Qualquer um faz isso em tentar não fazendo nada. Não faço nada. E não achei a elegância nisso. O truque é contudo tentar ansiosamente e falhar. Aí está.
Dizemos ainda, contudo... tentar e falhar, é fácil também qualquer um o faz.
Bom então a pequena elegância esteja em seguir tentando e falhando. Mas é coisa de quem está predisposto a respirar, seguir tentando. Oras. Me escapou a beleza... Porque acabo vendo que... naquilo que me era único, que eu era diferente... é o que todos somos iguais.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eu e você

Se meu pesar é o seu.
Se minha tristeza é a sua.
Se o meu maior choro é o seu.
E você continua
achando que somos diferentes?
E você continua
achando que estamos longe?

Se minha alegria é da sua.
Se minha vida é mera cópia da sua.
Se meu sentimento é o seu.
E você continua
achando que não me importo?
E você continua
achando que estou alheio e gosto?

Não é. É apenas diferente. Diferente
como eu não posso explicar.
Diferente como o caminho seguiu.

Mas...
se olha pra mim e vai chorar.
E eu não faço nada.
Repara.
É porque se destruiu o meu coração.
Não porque ele não está ali.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dos gêneros

Imaginemos então que... não só o cristianismo, não só o platonismo, não só a aristotélica mas toda a teoria dos gêneros que herdamos até hoje, seja o resquício do socrático-platônico. Imaginemos que a divisão entre o masculino e o feminino, entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, o ser e o não ser, são todos colocados em termos de ambivalências linguísticas. Porque o que não é masculino é feminino e vice-versa. O masculino e o feminino eram Deus e o Diabo (nesta ordem) e se consolidaram assim. Ou talvez, eram o que é bom e o que é mal (também nesta ordem), o que pecou e o que foi enganado pelo pecado. Pra ficar mais fácil, depositamos em qualquer uma destas categorias, toda a alegoria sentimental que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda representação de mundo que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda metáfora que exprima-se o corpo e para além dele: ou é masculino ou é feminino.

Qual é o sentido deste barulho que fazemos contra e a favor dos gêneros... Se, a bem da verdade, estes gêneros que estão aí colocados dicotomicamente, e que se impoem para modelar outros gêneros, são de fato ainda, o resultado de um pensamento único, um pensamento que nos prende há milênios, uma dicotomia sobre o discurso?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

E se

você sair do armário baby... o mundo inadvertidamente te empurrará de volta pra lá em todas as situações em que você disser:"Oi, como vai?"

domingo, 23 de junho de 2013

Epifania da Picardia no Brasil

O maior e único homem rico, trilhonário, do mundo aparece na varanda de sua mansão. Concentrara toda riqueza, por assim dizer, desde que se tem notícia. Diz-se que mandou matar certa vez um reporter que lhe perguntou umas coisas obscenas. Dizia-se ainda que sua fortuna era capaz de cobrir uma cidade de ouro até a altura do himalaia.

Ao responder à pergunta, "mas o senhor não tem vergonha de deter toda riqueza do mundo, enquanto todo o resto morre na miséria completa?", afirmava o trilhonário:
- De maneira nenhuma. Esta pobreza já estava aí há séculos. E minha fortuna... eu a herdei de meus pais.

Uma pausa pra respirar e rematava com classe:

- E eles herdaram dos pais deles e estes por sua vez de seus pais...
E todos trabalharam muitissimamente pra conquistá-la.