Frase riscada,
marca-passo
Parado
Amaldiçoada
Passo marca
faz, faz
o tempo,
desfaz.
Tempo faz
o próprio desfaz
ritmo
lento
de próprio
tempo
a métrica
estática.
quarta-feira, 9 de março de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Só-apenas, sozinho-só
Já se pode sentir só, sim, sim, sentir-se Só,
Só se pode sentir só, sim, sim, sentir-se Só, Só, só
brio sentir-se Só, em
bria
gado mal
trata
dó sem dó Só-só,
sem ninguém estar só,
Só se pode sentirem só
vincados de desejos sós
de nuvens de margaridas, de pó
sentindo Ssó.
Só se pode sentir só, sim, sim, sentir-se Só, Só, só
brio sentir-se Só, em
bria
gado mal
trata
dó sem dó Só-só,
sem ninguém estar só,
Só se pode sentirem só
vincados de desejos sós
de nuvens de margaridas, de pó
sentindo Ssó.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
A mentira da Preguiça
A maior mentira de todos os séculos é a mentira da preguiça.
Preguiça é uma palavra mentirosa e poderosa. Quando a palavra preguiça é dita em voz alta, mais propriamente, quando o fulano diz para o cicrano 'a sua preguiça', junto com ela vem um véu de mentira que esconde vastas coisas por 5 ou 6, ou talvez mais séculos (pra nós são 5).
A mentira da preguiça foi contada aqui pela primeira vez por portugueses quando chegaram ao nosso subcontinente. Porque foi o europeu que disse neste português que escrevemos, ele disse sub, e naquela época sub se chamou, e sub ficou, já pensamos desde cedo, sub que somos, acometidos no espaço pequeno de ser sub. Indolentes.
Pra justificar a superioridade dos que não tem natureza indolente e preguiçosa, criar contraposição, os preguiçosos, índios. Daí seguiram com os preguiçosos negros. Depois, bem depois, nasceu também os preguiçosos brasileiros. Hoje além destes todos a gente tem também os preguiçosos pobres, é claro. Os ricos como sabemos são árduos trabalhadores e meritocraticamente-eticamente entitulados à sua fortuna por seu bom trabalho e de seus descendentes diretos ou indiretos. "Sim, tem tudo isso, toda esta riqueza, mas trabalhou sabe? A vida inteira por três turnos, quatro se deixassem. E a família toda é assim." A mentira da preguiça limpa bem as consciências dos que não conseguem justificar riqueza. Uma vassourada bem trabalhada.
Ou podemos dizer "esta gente misturada, preguiçosa", fazendo apologia a todas estas quatro imagens-figuras, com incrível poder de síntese.
Na história, a ordem cronológica do aparecimento dos preguiçosos variou do supracitado, mas hoje nos é claro este quadro. É claríssimo aliás. Quando a palavra preguiça é dita, junto com ela segue o rabo: "índio-preto-brasileiro-pobre", nesta ordem de imagens talvez. Isto é tão poderoso que mesmo com 500 anos de história contadinha-vividinha em dias-e-dias-e-dias mais de 170 mil, milhões e milhões de horas de milhões e milhões de brasileiros conversando num imenso continente, um barulho inexorável capaz de pagar qualquer ideia forte que seja, poderíamos dizer, mas esta mentira é tão poderosa e tão forte que 500 depois continua sendo a primeira imagem que surge pra gente quando a gente conta nos dedos a preguiça.
É de estória em estória, de jargão em jargão, de tradição em tradição, transmitida de pai pra filho, filho pra neto, bisneto que a emoção nos é passada... As palavras vão girando, girando, girando umas nas outras ao longo dos tempos, e vamos ministrando bem essa oração.
A mentira da preguiça da natureza indolente é dominante, gostosa, mantenedora de status quo. É aquela que diz que a natureza das pessoas, AQUELAS pessoas é a indolência e a preguiça, aquela que fundamentalmente se usa deste argumento para gerar dominação: social, trabalhista, capital, sentimental, psicológica, religiosa.
(A preguiça também se sofistica em certos círculos sociais com certo requinte ou não. Você precisa ser mais pró-ativo. Sair da sua zona de conforto. Precisa ser criativo. Fracassou? Não tentou com suficiente aplicação à causa, não dedicou horas/dias/semanas/meses/anos suficientes. Ainda hoje corre nas ruas uma também de que "é só se esforçar que você vai chegar lá". Dizem que é uma preguiça do capital.)
Que preguiça eu tenho do capital. Preguiça capital, de tudo isso, preguiça daquelas de se afundar no sétimo inferno de Dante.
Sugiro escrever a palavra preguiça sempre riscada daqui por diante com o comentário "mas é mentira tá gente?" em tamanho de fonte de nota-de-rodapé.
Porque afinal de contas com tantos monstros andando no meio da gente há tanto tempo. E precisamos rir com coletividade deles com um gosto-gostoso um sabor docinho-azedo, de nossa preguiça. Porque quem precisa dar nome à preguiça, quem precisa negar preguiça, quem precisa "eu não sou preguiçoso", quem precisa "porque el@ é preguiços@". Este desespero, quem precisa, precisa para criar dominação e exclusão.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
sábado, 3 de outubro de 2015
História Curta
(Esteja a força desses poemas
na mesma altura da violência que o gerou
não estando a seu par,
esteja a lembrança para
um réstio duradouro de vida.
Que lute contra esta violência
que nos vai comendo por baixo
sem que a percebamos.)
Um estranho andar funestona mesma altura da violência que o gerou
não estando a seu par,
esteja a lembrança para
um réstio duradouro de vida.
Que lute contra esta violência
que nos vai comendo por baixo
sem que a percebamos.)
vai marchando, cortejo afora
preso em consciências nodosas.
a chuva acompanha pela rua.
Era já tarde quando passava
em ritual carro condolente,
o que ali ia não se pronunciava,
fluía o contínuo silente.
Não se soube quando
começou a vida a vazar
fora dos corpos terminando
a por completo os deixar.
Sucedeu quando, leu-se epitáfio,
a cidade ainda dormente
levantava findo o crepúsculo.
Uma agonia crescente.
Era crime de ódio
disse uma multidão alvoroçada.
Um olhar penetrou os jovens:
fez a cena revelada.
Não era ódio o motivo
de ardente estupor.
Sobre os corpos em alívio,
o crime era de amor.
De pouca memória dada
um pouco tempo que se
para amar tiveram.
Dois jovens, nudez estirada.
Vão ali e aqui descansando
Esturricados balançando
No espaço corpóreo armado
espesso o pesar derramado.
espesso o pesar derramado.
Estranha a fruta da árvore
Sangue nas folhas, sangue na raiz,
sangue sobre tudo que se diz
corpos pretos sob a brisa e mais nada.
Dois são os jovens em silêncio
omitidos das páginas escritas
Juvenal diriam é o nome deste.
Aquele de nome Juvêncio.
Seriam outros seus nomes talvez,
real-nomes, nomes da vida
santificados seja o Vosso nome
venha a nós...uma história repetida
Corpos de presença absoluta
Deusa dos jornais de tanto amor,
morte e mesmo esplendorosas fotografias
morte e mesmo esplendorosas fotografias
em vermelho tingido de ardor.
Não se ouviram sacerdotes
não se lhes prestam homenagens
não se lhes breve recitam
"homens honestos que foram".
Não se lhes prestaram honrarias
Não se lhes rendem bajulações
Apenas sozinho na rua fúnebre
Não se lhes rendem bajulações
Apenas sozinho na rua fúnebre
o séquito do carro pingando seguia.
Uma hisória desimportante.
Espero. Espero. Espero. O dia em que ele virá. Virá feliz, muito feliz pra mim, ao meu encontro, espero a feliz vinda, com boca cheia me dizendo, "minha pequena borboleta, pequenina jovenzita, minha pequena, meu perfume de verbena..." me gritará ao chegar. Estou, respondo. Perfume de verbena, o nome que ele me chamava quando tava aqui... Há um grande tempo eu espero, uma longuíssimo tempo, mas não me pesa. Guarda o medo... Faço a espera com segurança.
Voltará, sim, diz comigo agora, diz, voltará. Sim voltará... Diga comigo.
Não me pesa esta grande espera, tenho cá grande esperança no coração, uma fé, ele volta. Espero o primeiro encontro,"Minha pequenina mulher, meu perfume de verbena..." me gritará preocupado, "estou", respondo.
Estou em minha cama, ligo a luz, ele vem hoje, sei que vem. Os trens chegam duas vezes ao dia, o que chega à noite eu já o escuto glin glin glon, sim ele está próximo... A noite, todas as suas tristes horas cada qual mais triste que a próxima, só uma delas feliz, a de sua chegada.
Alguém vem, alguém bate na porta, me chama pelo nome, corro esbaforida, sim, deve ser ele que chegou, gekummen, gekummen, gekummen.
Vou ao seu encontro, ao seu encontro, estou ao seu encontro. O encontro. É o demônio das águas. Meu tudo, minha vida, cego de amor, corro ao teu encontro, me jogo no teu braço. Te beijo, te mordo te quero. Morro. Morro de maldição, amaldiçoado eu, amaldiçoado você, demônio das águas. Iechibaba a nos amaldiçoar, tu porque me deixou por outro, eu porque me sacrifiquei por ti, Iechibaba não nos libertará. Te beijar, te agarrar, te abraçar e morrer. Agradeço o encontro, agradeço esse momento, agradeço o amor, ter experimentado esse pequeno amor em tão pequeno tempo em tão pequeno espaço, tão por acaso. Esse amor que já se foi. Selo tudo com o sacrifício, encomendo sua alma a Deus, viro o demônio da morte das águas, a morte do amor.
Iechibaba me transformou. Sou uma Bludicha, demônio nas águas. Atormento os seres, tiro-lhes dessa ilusão de amor. Ensino-lhes que todo sacrifício é fútil, vão.
Voltará, sim, diz comigo agora, diz, voltará. Sim voltará... Diga comigo.
Não me pesa esta grande espera, tenho cá grande esperança no coração, uma fé, ele volta. Espero o primeiro encontro,"Minha pequenina mulher, meu perfume de verbena..." me gritará preocupado, "estou", respondo.
Estou em minha cama, ligo a luz, ele vem hoje, sei que vem. Os trens chegam duas vezes ao dia, o que chega à noite eu já o escuto glin glin glon, sim ele está próximo... A noite, todas as suas tristes horas cada qual mais triste que a próxima, só uma delas feliz, a de sua chegada.
Alguém vem, alguém bate na porta, me chama pelo nome, corro esbaforida, sim, deve ser ele que chegou, gekummen, gekummen, gekummen.
Vou ao seu encontro, ao seu encontro, estou ao seu encontro. O encontro. É o demônio das águas. Meu tudo, minha vida, cego de amor, corro ao teu encontro, me jogo no teu braço. Te beijo, te mordo te quero. Morro. Morro de maldição, amaldiçoado eu, amaldiçoado você, demônio das águas. Iechibaba a nos amaldiçoar, tu porque me deixou por outro, eu porque me sacrifiquei por ti, Iechibaba não nos libertará. Te beijar, te agarrar, te abraçar e morrer. Agradeço o encontro, agradeço esse momento, agradeço o amor, ter experimentado esse pequeno amor em tão pequeno tempo em tão pequeno espaço, tão por acaso. Esse amor que já se foi. Selo tudo com o sacrifício, encomendo sua alma a Deus, viro o demônio da morte das águas, a morte do amor.
Iechibaba me transformou. Sou uma Bludicha, demônio nas águas. Atormento os seres, tiro-lhes dessa ilusão de amor. Ensino-lhes que todo sacrifício é fútil, vão.
sábado, 1 de agosto de 2015
Luto,
luto com as armas que tenho
sangue, mortes e amores e violência
a ópera das dores e da demência
Se soubesse com outra coisa lutar
se soubesse usar do bem-estar
estaria a cerzir colunas sociais
desceria ao leitor as boas morais
Mas que estranha esta luta
que estando sozinho nos meus gostos
que sem companheiro pra desgostos
deixo intacto o grande circo do sonho
Peço licença pra me derramar
e rendo homenagem àqueles que
não como eu na maneira de lutar
de seu bom prazer de bem-estar
tenham a boa-ventura de um dia morrer
sem me escutar querer
(Quase Anônimo)
sangue, mortes e amores e violência
a ópera das dores e da demência
Se soubesse com outra coisa lutar
se soubesse usar do bem-estar
estaria a cerzir colunas sociais
desceria ao leitor as boas morais
Mas que estranha esta luta
que estando sozinho nos meus gostos
que sem companheiro pra desgostos
deixo intacto o grande circo do sonho
Peço licença pra me derramar
e rendo homenagem àqueles que
não como eu na maneira de lutar
de seu bom prazer de bem-estar
tenham a boa-ventura de um dia morrer
sem me escutar querer
(Quase Anônimo)
domingo, 26 de abril de 2015
...
De dentro da prisão em que o muro somos nós nunca estamos a sós.
Luas e sois passam e é a terra que gira.
Estaríamos agora de ponta cabeça?
Girando e girando.
Pode me informar as eras? Que eras são?
Ai eu deixo uma pergunta.
Quem deu o gênero ao mome das coisas?
Quem deu nome as coisas de gênero?
Segreguemos frangos.
Devem ter sido seres humanos.
A família explica.
A escola explica.
A igreja explica.
A ciência chega de nariz em pé, e pede água.
O rio pede sol, de janeiro em diante.
É que é tão difícil ser feliz.
É tão difícil ser humano.
Mas o que é mais difícil e tem um caráter quase utópico é ser.
E o que vocês seriam se não fossem o que são?
(Anônimo).
Luas e sois passam e é a terra que gira.
Estaríamos agora de ponta cabeça?
Girando e girando.
Pode me informar as eras? Que eras são?
Ai eu deixo uma pergunta.
Quem deu o gênero ao mome das coisas?
Quem deu nome as coisas de gênero?
Segreguemos frangos.
Devem ter sido seres humanos.
A família explica.
A escola explica.
A igreja explica.
A ciência chega de nariz em pé, e pede água.
O rio pede sol, de janeiro em diante.
É que é tão difícil ser feliz.
É tão difícil ser humano.
Mas o que é mais difícil e tem um caráter quase utópico é ser.
E o que vocês seriam se não fossem o que são?
(Anônimo).
sábado, 4 de abril de 2015
Viver
Ficamos fazendo barulho por aqui ou ali. É uma coisa, um discurso interminável de resolver problemas ou de criar, coisa de se elevar o auge da existência. Ficamos em tempo de enlouquecer fingindo sanidade eterna, que é prova de que maior loucura não há. Discursos sobre discursos um querendo enganar outro, ou sobrepor, ou anular, ou desexistir. Mas olha... o tempo nos vai comendo bem silente. Não tem muita análise de discurso por ali... Bem quietinho. Bem desavisadamente. Bem sem querer nada. Vai comendo manso espreitando a bocada final. Gulosa. Demora um pouco mais um pouco menos e Zás! Demora um nanosegundo, um ano, uma década ou século. Zás. Afinal de contas como é que o tempo se conta sem as invenções da física de relojoaria atômica e outras artimanhas ultra-precisas. Se conta por eventos de importância e desimportância organizadas em discursos que se sobrepoem, se analisam, se interconectam sem nenhum sentido exato pela não existência de passado, presente ou futuro. Não existindo no tempo uma direção a que correr sendo um organismo duro, interceptam entre suas entranhas e peles esses intervalos todos de vidas, daqueles que duram século ou pico, femto, yatosegundos, porque não? Aquele tempo de evaporação de mini-buracos negros (Buracos negros bebês que nem se viu já foram). Estão todos por ali entre o começo e o limiar de sua existência (mas se é que este verbo existe a partir de fora da silhueta do tempo, visto daqui, deste lado de quem a observa).
Escrever
Escreva, escreva, escreva. Pra você escrever o que tem que escrever (mas você não tem que escrever nada e isto precisa ficar abundantemente claro), você vai precisar de três grandes coisas. A primeira de todas e chave primordial, mestra peça de encaixe no escrever é a disciplina.
A segunda de todas, não menos importante, que se junta à primeira em igualdade de aparição é a disciplina. E a terceira, finalmente, que completa o cenário é a disciplina.
Disse Emanuel pra Chico Xavier aí, já alguns bons 60 ou 70 ou mais anos atrás. 70 anos depois e ainda precisamos sempre da repetição.
A segunda de todas, não menos importante, que se junta à primeira em igualdade de aparição é a disciplina. E a terceira, finalmente, que completa o cenário é a disciplina.
Disse Emanuel pra Chico Xavier aí, já alguns bons 60 ou 70 ou mais anos atrás. 70 anos depois e ainda precisamos sempre da repetição.
sábado, 14 de março de 2015
Condotta ell'era in ciepi. Cossotto.
Depois que Fioretta Cossotto cantou, regida por Karajan a maior encarnação da cigana (Trovatore) que confusa joga o próprio filho na fogueira, e narra pro suposto "impostor" o fato... Depois desta redenção absoluta, todas as demais não passam de um ensaio sem graça. Um mero ensaio a quem deve faltar voz, cena, corpo, impressão e sobretudo dramaticidade. Não deve haver na história da ópera agudos mais dramáticos do que Azucena em "Il figlio mio avea bruciatto!" (E irônico este papel ser pra alto!).
Se Verdi visse, certamente diria: é isso. E só isso.
https://www.youtube.com/watch?v=z-GWr5IiyfQ
Se Verdi visse, certamente diria: é isso. E só isso.
https://www.youtube.com/watch?v=z-GWr5IiyfQ
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