quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poema

Quando tinha 15, achei que eram só palavras.
Quando tinha 30 achei que tinha capturado sentido.
Aos 45 entendi que com 30 não tinha entendido nada.
Nos 60 achei que os sons eram bonitos se ditos alto.
Com 75 ainda chorava ao lembrar, mesmo esquecido.
Aos 80 então, colocaram sobre mim em pedra.
Até hoje lá está.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Organização

Esta organização excessiva, essa fragmentação elevada a último nível pode dar a impressão de que tudo na vida tem um propósito, de que nossas ações devem ser organizadas para gerar o máximo de propósitos possíveis. Há uma indelével certeza de que viver é maximizar as certezas.

O grande propósito é desfazer todos os propósitos. É se movimentar por entre o desconhecido absoluto, o absurdo, o inenarrável, com leveza e graciosidade. Ou gargalhando.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Tudo sobre a escola sem partido

Ai estes(as) protagonistas da escola sem partido querendo transformar um espaço público em algo tão insosso quanto eles(as) mesmos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Os ninguéns

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

(Eduardo Galeano).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Forma

Os corpos não são para todos.
Existir o corpo não é para todos.
Há corpos que não existem
em sua invisibilidade.

Corpos que não se tem.
Escondidos. Penumbra.
Só se os vê com preza atitude de desprezo.
Luz sobre corpos, desprezo.

A luzes se apagam.
Corpos andróginos.
Corpos marcados.
Corpos coloridos.
Corpos gordos.
Corpos velhos.
Corpos caídos.
Corpos rugados.
Corpos mesclados.

Corpos geométricos de curvas decididas
não são pra todos.
Corpos de penumbra sem luzes incididas
não são pra todos.
Corpos nus em sua inexorabilidade
não são pra todos.

Pra dizer a verdade,
Os corpos para todos são bem poucos meu bem.
Corpos incomuns não são para todos
Corpos unidos potência
desnudos meio moucos...
Apaga-se a luz.

Todos os corpos que não são para todos,
inviabilizados não são pra todos,
invisibilizados não são pra todos,
desnaturalizados, desarmados,
desatados do natural
desamarrados de seu ser,
forçados a serem outros,
expressos em existência infame de inquestionável pureza,
corpos corretos encaixotados.

No final, o corpo cria a ilusão
de que o corpo é meu.
De que o corpo é teu.
De que o corpo é dele.
Tudo isto que nos pertence,
mas que um dia deixará de
e que não falemos neste dia,
oxalá longe esteja.

São contudo os corpos, coletivos
O desejo dos corpos é coletivo
A violência sobre os corpos nasce coletiva
E o que mais importa sobre os corpos é coletivo.

A individualidade dos corpos
no próprio corpo,
fala com poética ilibada benevolente,
o lirismo em profusão,
"meu corpo livre,
teu corpo livre,
o corpo dele livre."

Uma falsa impressão da liberdade
e estará sempre ausente
perdida, ao longe.

Gisele

Rostos deitados desconexos
Corpos nus espalmados entre sexos
Recoste num travesseiro desconhecido,
respiração leve.

Remodele suas esperanças meu boy
O corpo vai pesando odores
marcas 
já o dia vai começar, estranho.

Este som macio que te fez chorar
este que te faz lembrar
esqueça boy, esqueça tudo
com a taça de vinho na mão

A tristeza, mesmo ela quer te deixar
dá abertura, deixa ela ir, deixa ir
é a última, claudicante, aproveita
mas não esquece de sempre a lembrar

Que cor tem
que cheiro
onde mora
e o que mais importa: o que deseja.

Ou não, lembre muito bem
de esquecer este destino retorcido,
se o tempo retesado te endurece
se a amargura tece.

Porque esta réstia boy, esta terrível ternura
que te todo dia cresce no peito
que o abre à faca parecendo destino
Não te defendas dela.

Deixa que ela, ópera, dance,
que ela, grande incerteza, voe
sê bom com ela, pois que
pra além de silêncio espalhar-se-á.

Solidão

Como os poetas que cantavam a solidão, viveram solidão, ao longo de tempos, de tempos, de tempos pra lá ou pra cá. A solidão entregue fragmentada desde textos de Caio Fernando Abreu. Esta solidão nos resta saber dela.

A alma canta a solidão.
Vindo de um caminho de breu
na discórdia.
No âmago semente
letra de amargura.
Silêncio solidão em rogo.

Mas se solidão premente
se solidão desejo,
entre espaços microscópicos,
onipresente
me toca solidão em cura,
me abre solidão em fogo.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Caridade

"Queira Deus que nunca se extinga a caridade para que não venha a acabar-se a pobreza."
Saramago (O Ano da morte de Ricardo Reis).

domingo, 26 de junho de 2016

Falling in love

"I felt in love with him in the way you fall asleep... slowly... then all at once."

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Escolha

O suicídio é realmente uma escolha, se, quando as pessoas se suicidam entendem que este é o único caminho disponível, e nenhuma outra possibilidade existe? Afinal quem é que "escolhe" se suicidar? (Ou melhor, que escolha existe neste caso?).

(A mim, o espírito que paira sobre as águas (uma bludička) adverte: evite o suicídio, ele é feito pra vidas grandiosas...).

domingo, 12 de junho de 2016

Futuro do pretérito

Poliamor

plurissexual-pluridentitário.

Nada-sexual.

Metáfora da solidão persiste (desde os 80).
Negação do corpo virou droga.
Sexo-desejo-libido-fantasia-virilidade-enfastiado.
Vazio.

Relações: máximo três palavras por frase, máximo três frases por dia, máximo três dias por relação. Descontínuas, 27 palavras sem conectivos, máximo poder de síntese, máximo significado das palavras.

Solidariedão.

Palavras que não tem um conceito comum entre as coisas pras/das pessoas. Significados das palavras vendidos em troca de prazeres virtuais.

Corpos poli-interativos em velocidades multi-armazenáveis, pluri-estruturados em ultra-capsulóides de nano-camadas sinc-sincronizados.

Quando a violência não era mais capaz de responder à excitação sexual... Houve então uma fase cinza de depressão absoluta em todas as pessoas do globo. Um desmantelamento do pequeno entendimento conservado até ali. Assexualidade.

Por dez dias ninguém ouviu qualquer som de comunicação. A solidão finalmente ficou tão insuportável, que quando uma pessoa conseguiu olhar pra outra, ambas se abraçaram e começavam a chorar por horas seguidas.