quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As Três Palavras mais Estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska (poetisa polonesa a ganhar o Nobel em 1996).

As proporções continentais.

Nas proporções continentais, que tenho lido, dos relatórios "viciados" de fundos como FMI, Banco Mundial e órgãos correlatos, temos que a União Européia, os EUA e Japão somam em suas populações algo em torno de 0,94 bilhões de habitantes (2008), ou o correspondente a 14% do total do Globo. Estes mesmos países somam, em relação ao PIB, produto interno bruto do planeta em torno de 51% do total, um valor 3,5 maior do que o que seria a média: 33 trilhões de dólares. O número 3,5 maior é do fato de se compararmos a população de 6,7 bilhões com o PIB de 65 trilhões.

Num grito distoante disto está o continente africano, e o Sul da Ásia. No continente africano, temos uma população igual à do grupo supracitado (0,93 bilhões de habitantes), e ao mesmo tempo, um PIB  total de 1,25 bilhões de dólares, o que significa 27 vezes menos do que o PIB Europa-EUA-Japão. Sul da Ásia, por sua vez, tem uma população perto de 2 bilhões e um PIB também não maior do que as proporções africanas.

Nos grupos intermediários, entram alguns países latino-americanos, China, Rússia (tendendo ao primeiro grupo contudo) e Oriente médio.

Dos demais, Oceania e tigres asiáticos, se aproximam do primeiro grupo em termos percentuais.

Isto é uma análise bastante parcial contudo. Porque, no fundo do nosso quintal, o Brasil, ocupando uma posição intermediária entre as pobrezas e as riquezas, tem ainda a dimensão catastrófica da miserabilidade advinda de uma história corruptiva, que corrobora  com a má distribuição dos recursos. Se na África, subexistem estas populações inteiras miseráveis, na mesma instância, no Brasil 15% da população (minimamente) se encontra em situação extremamente precária. Extremamente precária quer dizer abaixo de qualquer índice mínimo relativo à subexistir (que está muito aquém do existir).

É só esta a tarefa que nos falta para os nossos próximos anos.

Franco-germanófila.

O ser patético é totalmente blaisé.

O ser                 é totalmente blasé.

O ser                    totalmente blau.

    ser                    totalmente  uau.

                              totalmente   lá.

                                                      a.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Diagramação das palavras.

Aponte seu periscópio certeiro.

No nascimento de uma nova palavra.

Não deixa o censor alcoviteiro.

Desarrumar a pruma que andava.


Ó que horror dizia o censor.

Inventaste de novo o furor

Não tens nem o direito ou licença

De mantê-lo sem desavença.


Mas pra isso existem os gramáticos

Sim senhor seu censor, que decidem

Eu cá só estou em delírio

Deliciado com a invenção, um colírio...

Fim de noite

De manhã a criação pede uma folga.

Tempo pra ficar sozinha com calma.

E ronca e sonha com poemas que nascerão.

Gestados nos sonhos e nas imagens noturnas do inconsciente.


É hora de ir pra cama, diz a consciência.

A consciência sempre amiga do conselho.
Aconselha de se esquecer estas bobagens de inconsciente.

Que ataca à vaca louca a noite.


Diz a consciência pra fazer o que se deve fazer.

E nada mais.

Diz e morre pra dormir no inconsciente.

Pedindo e seguindo a desobediência.

O mau Poeta.

Poemas de mau poeta 

mal pensados,

mal talhados,

tortos em linhas retas,

vão que se vão

acusando na mão,

aqui tem um coração

que se senta e pulsa

mas não consegue

dizer com vernáculo

o que lhe vai por dentro

só pensa de momento

sobre algo existir,

Ecco è il fato!


E era italiano.

Finais de Semana

Há aqueles finais de semana sonhadores, esperançosos em Lá  bemol maior, finais de semana em manhãs de sábado com Sol entre folhas de árvores, gosto de relva. Finais de semana com filmes de fim de tarde e que se acabavam no vamos fazer outra coisa porque a televisão no domingo a tarde se negava a funcionar. Parecia dizer: me deixem em paz com minha quietude!


Há aqueles finais de semana nublados, cinzentos e cheios de olhares pro lado em Dó sustenido menor, aqueles em que se olha muito mais pra baixo, um nó na garganta, que passam lentinho, falam baixinho, resolvem uma melodia quieta, e serena de tristeza, límpida, como uma própria flanela de seda, passando lisa no tempo da mesa.


Há os finais de semana tenebrosos em Ré menor, cheio de erros e borrachas e a prova de apagadores de ações feitas e refeitas, penduradas em prego na memória, vincadas a parafusos na pele, que dizem não deixar esquecer este horror que ficou feito, o que se faz e se fará, que diz não deixar esquecer nada disso, tudo anotadinho, no livro das causas sem solução que depois tomará conta não sabemos quem.


Há aqueles finais de semana em Dó maior sem nada disso, aqueles em que só se deseja, trabalhar, estudar, assistir a novela, ler um livro, e começar de novo outras coisas na segunda-feira que não são são as mesmas da última semana.

Questão de Ordem

E essa questão de mundo corrompido

vem de olhar pro próprio umbigo, 

uma vez e outra vez mais?


Qual o quê, já não sabes?

Hoje, é o frio de se pensar

pra onde ainda a vida pode vazar.


Oras, a começar, pra escrever

não restam idéias além das já escritas

e pra ocupar que outra Terra?


O pensamento da história que se quer esquecer,

conseguiu ser ocupado

pelas tropas da OTAN, e Bombas H a guarnecer.


Pode a realidade do papel

com os intentos malevolentes

das rainhas más das óperas financeiras

assombrando os light motifs patentes?


Se pode ou não, o essencial é atenção!

Não sentir mais nada, a receita é feita.

De hoje em diante toda respiração será cobrada.

Ficar permanente e só, eis a prescrição.


Movimento

Move-se a língua sobre a boca

a boca sobre a cara e a cara sobre o ar.

O ar sobre a Terra, a Terra sobre o Sol, o Sol 

sobre a galáxia.

A galáxia sobre as galáxias, as galáxias sobre o Cosmos.

O Cosmos sobre os cosmos, os cosmos sobre o tudo.

O tudo se move sobre palavras. Palavras que nem foram inventadas ainda. Num constante movimento, de poesia.

Uma Compôsita

Deixe lá que se mova perto de si o escadafalso. O escadafalso, exclamagurgitaram todos com ar descompressionante. E que lhe serotoronia este conceituactual?  Era apenas uma faltande pulmonalar. Brônquios, bronquíolos, alvéolos.

A Vida

A vida, esta causa perdida

queria se encontrar nas esquinas

das muheres da vida.

Encontrava-se com homens e mulheres voluptuosas

com formas arredondadas e chapéis de seda clássica.


Perguntou-se se não estaria

perdida entre aquelas mulheres perdidas

Não senhora, aqui sabemos tudo!

Endereço, cep, número de residência!

Bote aí no seu logradouro rua da Avaria.


Mas a vida esta causa perdida

Se insatisfez com as mulheres da vida

e partiu noite súbita, 

sem deixar lenço de adeus

Ou flores educadas, apenas a partida.


Andou por caminhos estreitos, escuros.

Chegou na avenida São João e viu Tom Jobim.

Que dizia pra ela:”deixe a vida te levar!”.

Insatisfeita a vida, causa perdida.

Seguiu para o interior, e lá... quem sabe... enfim.


No meio do caminho, viagem longa de ônibus

A rota das ruas se confundiu e a vida

Entrou nos viadutos errados 

Pra desembocar 

entre o Pinheiros e o Tietê, a chorar.


Mas um verso saudoso. 

Meloso de voz mansa e doce, a saudou

“não chore ainda não”

“que eu tenho uma razão”

“pra você não chorar”.


E a vida, descabelada se refez,

deixou o pranto e a lugubrez

e foi morar noutro lugar

onde se pudera notar

que a vida não é causa perdida.


Desde então com endereço fixo,

os pessimistas a debandar,

exigindo a volta da vida,

pras estradas da perdição

com as mulheres da vida, perdidas.


Mas foi ela pronunciar, um sim ou não

Vieram grupos, hordas, pedras na mão

Queremos que fique ali, aqui, acolá,

E ninguém pra fixar

Um lugar definitivo.


Desde este tempo a vida, escondida,

vive seu cantinho silente.

Passa gel no cabelo a noite,

Come maçãs de sobremesa no almoço.

E nunca esquece... de estar sempre... perdida.