a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
O ser patético é totalmente blaisé.
O ser é totalmente blasé.
O ser totalmente blau.
ser totalmente uau.
totalmente lá.
a.
Aponte seu periscópio certeiro.
No nascimento de uma nova palavra.
Não deixa o censor alcoviteiro.
Desarrumar a pruma que andava.
Ó que horror dizia o censor.
Inventaste de novo o furor
Não tens nem o direito ou licença
De mantê-lo sem desavença.
Mas pra isso existem os gramáticos
Sim senhor seu censor, que decidem
Eu cá só estou em delírio
Deliciado com a invenção, um colírio...
De manhã a criação pede uma folga.
Tempo pra ficar sozinha com calma.
E ronca e sonha com poemas que nascerão.
Gestados nos sonhos e nas imagens noturnas do inconsciente.
É hora de ir pra cama, diz a consciência.
A consciência sempre amiga do conselho.
Aconselha de se esquecer estas bobagens de inconsciente.
Que ataca à vaca louca a noite.
Diz a consciência pra fazer o que se deve fazer.
E nada mais.
Diz e morre pra dormir no inconsciente.
Pedindo e seguindo a desobediência.
Poemas de mau poeta
mal pensados,
mal talhados,
tortos em linhas retas,
vão que se vão
acusando na mão,
aqui tem um coração
que se senta e pulsa
mas não consegue
dizer com vernáculo
o que lhe vai por dentro
só pensa de momento
sobre algo existir,
Ecco è il fato!
E era italiano.
Há aqueles finais de semana sonhadores, esperançosos em Lá bemol maior, finais de semana em manhãs de sábado com Sol entre folhas de árvores, gosto de relva. Finais de semana com filmes de fim de tarde e que se acabavam no vamos fazer outra coisa porque a televisão no domingo a tarde se negava a funcionar. Parecia dizer: me deixem em paz com minha quietude!
Há aqueles finais de semana nublados, cinzentos e cheios de olhares pro lado em Dó sustenido menor, aqueles em que se olha muito mais pra baixo, um nó na garganta, que passam lentinho, falam baixinho, resolvem uma melodia quieta, e serena de tristeza, límpida, como uma própria flanela de seda, passando lisa no tempo da mesa.
Há os finais de semana tenebrosos em Ré menor, cheio de erros e borrachas e a prova de apagadores de ações feitas e refeitas, penduradas em prego na memória, vincadas a parafusos na pele, que dizem não deixar esquecer este horror que ficou feito, o que se faz e se fará, que diz não deixar esquecer nada disso, tudo anotadinho, no livro das causas sem solução que depois tomará conta não sabemos quem.
Há aqueles finais de semana em Dó maior sem nada disso, aqueles em que só se deseja, trabalhar, estudar, assistir a novela, ler um livro, e começar de novo outras coisas na segunda-feira que não são são as mesmas da última semana.
E essa questão de mundo corrompido
vem de olhar pro próprio umbigo,
uma vez e outra vez mais?
Qual o quê, já não sabes?
Hoje, é o frio de se pensar
pra onde ainda a vida pode vazar.
Oras, a começar, pra escrever
não restam idéias além das já escritas
e pra ocupar que outra Terra?
O pensamento da história que se quer esquecer,
conseguiu ser ocupado
pelas tropas da OTAN, e Bombas H a guarnecer.
Pode a realidade do papel
com os intentos malevolentes
das rainhas más das óperas financeiras
assombrando os light motifs patentes?
Se pode ou não, o essencial é atenção!
Não sentir mais nada, a receita é feita.
De hoje em diante toda respiração será cobrada.
Ficar permanente e só, eis a prescrição.
Move-se a língua sobre a boca
a boca sobre a cara e a cara sobre o ar.
O ar sobre a Terra, a Terra sobre o Sol, o Sol
sobre a galáxia.
A galáxia sobre as galáxias, as galáxias sobre o Cosmos.
O Cosmos sobre os cosmos, os cosmos sobre o tudo.
O tudo se move sobre palavras. Palavras que nem foram inventadas ainda. Num constante movimento, de poesia.
Deixe lá que se mova perto de si o escadafalso. O escadafalso, exclamagurgitaram todos com ar descompressionante. E que lhe serotoronia este conceituactual? Era apenas uma faltande pulmonalar. Brônquios, bronquíolos, alvéolos.
A vida, esta causa perdida
queria se encontrar nas esquinas
das muheres da vida.
Encontrava-se com homens e mulheres voluptuosas
com formas arredondadas e chapéis de seda clássica.
Perguntou-se se não estaria
perdida entre aquelas mulheres perdidas
Não senhora, aqui sabemos tudo!
Endereço, cep, número de residência!
Bote aí no seu logradouro rua da Avaria.
Mas a vida esta causa perdida
Se insatisfez com as mulheres da vida
e partiu noite súbita,
sem deixar lenço de adeus
Ou flores educadas, apenas a partida.
Andou por caminhos estreitos, escuros.
Chegou na avenida São João e viu Tom Jobim.
Que dizia pra ela:”deixe a vida te levar!”.
Insatisfeita a vida, causa perdida.
Seguiu para o interior, e lá... quem sabe... enfim.
No meio do caminho, viagem longa de ônibus
A rota das ruas se confundiu e a vida
Entrou nos viadutos errados
Pra desembocar
entre o Pinheiros e o Tietê, a chorar.
Mas um verso saudoso.
Meloso de voz mansa e doce, a saudou
“não chore ainda não”
“que eu tenho uma razão”
“pra você não chorar”.
E a vida, descabelada se refez,
deixou o pranto e a lugubrez
e foi morar noutro lugar
onde se pudera notar
que a vida não é causa perdida.
Desde então com endereço fixo,
os pessimistas a debandar,
exigindo a volta da vida,
pras estradas da perdição
com as mulheres da vida, perdidas.
Mas foi ela pronunciar, um sim ou não
Vieram grupos, hordas, pedras na mão
Queremos que fique ali, aqui, acolá,
E ninguém pra fixar
Um lugar definitivo.
Desde este tempo a vida, escondida,
vive seu cantinho silente.
Passa gel no cabelo a noite,
Come maçãs de sobremesa no almoço.
E nunca esquece... de estar sempre... perdida.