Imaginemos então que... não só o cristianismo, não só o platonismo, não só a aristotélica mas toda a teoria dos gêneros que herdamos até hoje, seja o resquício do socrático-platônico. Imaginemos que a divisão entre o masculino e o feminino, entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, o ser e o não ser, são todos colocados em termos de ambivalências linguísticas. Porque o que não é masculino é feminino e vice-versa. O masculino e o feminino eram Deus e o Diabo (nesta ordem) e se consolidaram assim. Ou talvez, eram o que é bom e o que é mal (também nesta ordem), o que pecou e o que foi enganado pelo pecado. Pra ficar mais fácil, depositamos em qualquer uma destas categorias, toda a alegoria sentimental que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda representação de mundo que tenhamos: ou é masculino ou é feminino. Toda metáfora que exprima-se o corpo e para além dele: ou é masculino ou é feminino.
Qual é o sentido deste barulho que fazemos contra e a favor dos gêneros... Se, a bem da verdade, estes gêneros que estão aí colocados dicotomicamente, e que se impoem para modelar outros gêneros, são de fato ainda, o resultado de um pensamento único, um pensamento que nos prende há milênios, uma dicotomia sobre o discurso?
sexta-feira, 28 de junho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
E se
você sair do armário baby... o mundo inadvertidamente te empurrará de volta pra lá em todas as situações em que você disser:"Oi, como vai?"
domingo, 23 de junho de 2013
Epifania da Picardia no Brasil
O maior e único homem rico, trilhonário, do mundo aparece na varanda de sua mansão. Concentrara toda riqueza, por assim dizer, desde que se tem notícia. Diz-se que mandou matar certa vez um reporter que lhe perguntou umas coisas obscenas. Dizia-se ainda que sua fortuna era capaz de cobrir uma cidade de ouro até a altura do himalaia.
Ao responder à pergunta, "mas o senhor não tem vergonha de deter toda riqueza do mundo, enquanto todo o resto morre na miséria completa?", afirmava o trilhonário:
- De maneira nenhuma. Esta pobreza já estava aí há séculos. E minha fortuna... eu a herdei de meus pais.
Uma pausa pra respirar e rematava com classe:
- E eles herdaram dos pais deles e estes por sua vez de seus pais...
E todos trabalharam muitissimamente pra conquistá-la.
Ao responder à pergunta, "mas o senhor não tem vergonha de deter toda riqueza do mundo, enquanto todo o resto morre na miséria completa?", afirmava o trilhonário:
- De maneira nenhuma. Esta pobreza já estava aí há séculos. E minha fortuna... eu a herdei de meus pais.
Uma pausa pra respirar e rematava com classe:
- E eles herdaram dos pais deles e estes por sua vez de seus pais...
E todos trabalharam muitissimamente pra conquistá-la.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Abramovic 2
Então é isso.
O encontro entre Marina Abramovic e Ulay, 20 anos depois é a explosão de uma supernova. O lugar em que tudo acontece e nada pode ser explicado, onde a linguagem se perde... é um exercício de absoluta presença. Presença nas sensações, dores, lembranças, momentos terríveis, presença na última caminhada. Presença num eterno, a presença no desistir de se encontrar a resposta.
É perfeitamente o desistir de se encontrar a resposta.
O encontro entre Marina Abramovic e Ulay, 20 anos depois é a explosão de uma supernova. O lugar em que tudo acontece e nada pode ser explicado, onde a linguagem se perde... é um exercício de absoluta presença. Presença nas sensações, dores, lembranças, momentos terríveis, presença na última caminhada. Presença num eterno, a presença no desistir de se encontrar a resposta.
É perfeitamente o desistir de se encontrar a resposta.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Espólio
Licença poética para dizer, sobrou um nada sobrou.
Licença poética para dizer que fomos um fomos nada.
Licença poética para dizer que juntos sonhamos nada.
Licença poética para dizer que fomos um fomos nada.
Licença poética para dizer que juntos sonhamos nada.
Licença poética para dizer que desculpa pelo que sou nada.
Licença poética para dizer pela falta que me fez nada.
Peço licença poética finalmente para dizer ao senhor que todo meu sentimento, senhor doutor, foi um grande nada.
Peço licença poética finalmente para dizer ao senhor que todo meu sentimento, senhor doutor, foi um grande nada.
sábado, 16 de março de 2013
Uma volta
"Jogue a cópia da chave
Por debaixo da porta
Pra não ter motivos
Pra pensar numa volta...
Fique junto dos seus
Boa sorte
Adeus..."
Morri hoje quando li isso...
Por debaixo da porta
Pra não ter motivos
Pra pensar numa volta...
Fique junto dos seus
Boa sorte
Adeus..."
Morri hoje quando li isso...
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Fazemos
Porque não importa o que você faz, no final, você sempre está sozinho. Independentemente de.
Marina Abramovic
Uma coisa assim, inexplicável. Passar a vida toda, uma eternidade inteira de cinco anos na confluência do ser junto com outra pessoa. Uma outra pessoa qualquer que está ali junto. Que com ela forma um já-não-sou-mais-eu-sou-outra-coisa-que-me-perdi.
Uma coisa, inexplicável. Não consigo pensar. Não consigo imaginar. Não consigo tatear, não consigo nada. Alguém me dá um verbo pra conseguir?
Inexplicável. Daí um dia, depois de muitos outros, depois que toda a subjetividade de um e dois foi destruída, um dia, eles pensam: não podemos mais... precisamos mais e mais que um e dois, precisamos outros mais que um e dois. Chegam à dolorosa conclusão de um. Dolorosa conclusão.
Claro. Com eles a coisa não iria ser assim, não iria ser a dolorosa conclusão e até logo. Havia um processo, havia algo, uma emergência, um chez bien.
Decidiram-se: cada qual a sua ponta na muralha da China, 5 mil quilômetros de distância aparte. 5000 quilômetros. São 5000000 de metros, 5000000000 de milímetros, 5000000000000 de micrômetros, podes imaginar o que caberia ali?
Cinco mil quilômetros de "não seis", 5 mil de "e o quês", 5 mil de um tudo.
Põem-se a caminhar. Um caminha daqui, outro já vindo de lá e tempo passado os dois estão a chegar no meio. Se encontram, se abraçam com toda profundidade que podem, com tudo que seu pouco corpo deixa, que sua pouca forma deixa, põem à prova naquele ato o seu nada existencial. Aproveita bem leitor, é o último. Desses não haverá mais, nem por séculos e séculos.
O Universo se abraça junto. E então. E então. Então adeus. Até logo não, não sei, nos veremos? Não sei, portanto não até logo, mas adeus.
Eis tudo.
Eis tudo.
Eis tudo.
O que quantificar, o que precisar, o que analisar, com o que ficar, o que descartar, o que demonstrar, o que escrever, o que levar, o que oq euq euq euq euq equequequeuqeqeqqqqqqqqqqqq.
Finalmente o Universo, que naquele momento se abraçado havia, entrelaçado seus infinitos braços, havia retalhado o tecido do espaço e do tempo, soltou-se por todo. Mas sim, demorou uma eternidade, diz-se que vários outros multiversos nasceram e morreram no meio do caminho.
Em tempo de humanos havíamos contado os quase 30 anos entre o Universo cruzar e descruzar os braços. Foi em 2010 que quando finalmente, sem poder se falar, sem poder exercer poderes sobre o outro (lembramos que o Universo relaxou nesta hora), eles batem os olhos um no outro, de novo um pouco por acaso, um pouco por não sabemos o quê.
Marina Abramovic no MoMA em Nova Iorque recebe Ulay. É o fechamento do suicídio de Virgínia Woolf a dizer: "Leonard. Always the years between us. Always the years. Always the love. The hours." Neste preciso momento, neste instante, neste infinitésimo, neste nada, neste grão de coisa nenhuma, neste átimo, as duas pontas do Universo se encontraram.
Ele sorriu satisfeito.
Uma coisa, inexplicável. Não consigo pensar. Não consigo imaginar. Não consigo tatear, não consigo nada. Alguém me dá um verbo pra conseguir?
Inexplicável. Daí um dia, depois de muitos outros, depois que toda a subjetividade de um e dois foi destruída, um dia, eles pensam: não podemos mais... precisamos mais e mais que um e dois, precisamos outros mais que um e dois. Chegam à dolorosa conclusão de um. Dolorosa conclusão.
Claro. Com eles a coisa não iria ser assim, não iria ser a dolorosa conclusão e até logo. Havia um processo, havia algo, uma emergência, um chez bien.
Decidiram-se: cada qual a sua ponta na muralha da China, 5 mil quilômetros de distância aparte. 5000 quilômetros. São 5000000 de metros, 5000000000 de milímetros, 5000000000000 de micrômetros, podes imaginar o que caberia ali?
Cinco mil quilômetros de "não seis", 5 mil de "e o quês", 5 mil de um tudo.
Põem-se a caminhar. Um caminha daqui, outro já vindo de lá e tempo passado os dois estão a chegar no meio. Se encontram, se abraçam com toda profundidade que podem, com tudo que seu pouco corpo deixa, que sua pouca forma deixa, põem à prova naquele ato o seu nada existencial. Aproveita bem leitor, é o último. Desses não haverá mais, nem por séculos e séculos.
O Universo se abraça junto. E então. E então. Então adeus. Até logo não, não sei, nos veremos? Não sei, portanto não até logo, mas adeus.
Eis tudo.
Eis tudo.
Eis tudo.
O que quantificar, o que precisar, o que analisar, com o que ficar, o que descartar, o que demonstrar, o que escrever, o que levar, o que oq euq euq euq euq equequequeuqeqeqqqqqqqqqqqq.
Finalmente o Universo, que naquele momento se abraçado havia, entrelaçado seus infinitos braços, havia retalhado o tecido do espaço e do tempo, soltou-se por todo. Mas sim, demorou uma eternidade, diz-se que vários outros multiversos nasceram e morreram no meio do caminho.
Em tempo de humanos havíamos contado os quase 30 anos entre o Universo cruzar e descruzar os braços. Foi em 2010 que quando finalmente, sem poder se falar, sem poder exercer poderes sobre o outro (lembramos que o Universo relaxou nesta hora), eles batem os olhos um no outro, de novo um pouco por acaso, um pouco por não sabemos o quê.
Marina Abramovic no MoMA em Nova Iorque recebe Ulay. É o fechamento do suicídio de Virgínia Woolf a dizer: "Leonard. Always the years between us. Always the years. Always the love. The hours." Neste preciso momento, neste instante, neste infinitésimo, neste nada, neste grão de coisa nenhuma, neste átimo, as duas pontas do Universo se encontraram.
Ele sorriu satisfeito.
Bahia
Quando eu desci. No céu da Bahia de todos os santos. Vendo as praias deste lado e as praias daquele, a ponta da Barra. Olhei para o céu e deus me disse: vai!
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Destinos
Então quando os (nor)destinos chegavam em São Paulo, chegavam e paravam e ficavam. Quando cada (nor)destino humano era alimentado com sonhos apertados num pau-de-arara, no caravançaraí cheio das lembranças, ou na locomotiva, sonhos apertados nas bagagens, se sonhos de uma vida melhor, se sonhos de um não sei o quê, se sonhos da saudade de casa, se sonhos de um "estou apenas para a viagem e nada mais". Aqueles cheios das esperanças de São Paulo. E a cidade grunhia satisfeita e gulosa, pronta a massacrar a massa de (nor)destinos.
Porque cada (nor)destino humano que chegava em São Paulo toda contra eles, cada desembarque com o olhar no longe, nos milhares de quilômetros, da lonjura de casa (casa, aquela coisa que não sabemos o que é, e que se pode dizer que não existe), levava ali, naquele momento, naquele precioso instante todos os cidadãos do mundo, em sua mala. Os cidadãos do mundo botando o pé na rua manhã-cedo todos os dias pro feitio do existir... Levava ali, naquele precioso instante.
Porque cada (nor)destino humano que chegava em São Paulo toda contra eles, cada desembarque com o olhar no longe, nos milhares de quilômetros, da lonjura de casa (casa, aquela coisa que não sabemos o que é, e que se pode dizer que não existe), levava ali, naquele momento, naquele precioso instante todos os cidadãos do mundo, em sua mala. Os cidadãos do mundo botando o pé na rua manhã-cedo todos os dias pro feitio do existir... Levava ali, naquele precioso instante.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Amar
é como ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.
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