quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Amar

é como ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Espaço para a tristeza e para o luto

Espaço para a tristeza e para o luto, drama.

Estamos todos irremediavelmente sozinhos. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Não há fato nesta existência que se possa dizer aconteceu por isto. Acontece. Eist tudo. Estamos todos irremediavelmente perdidos. Perdidos num mar de silêncio. De incomunicabilidade. O essencial é incomunicável.

Espaço para tristeza e para o luto, o amor.

O amor acontece como um casulo, sempre na forma casulo. Está sempre casulando. Não sai da forma inicial. Não há se quer reconhecimento possível para amor que se queira sair da fase original de si mesmo.

Espaço para a tristeza e o luto, a vida a negativa.

A vida acontece como um erro de tudo. Acontece como o erro das probabilidades deste mundo. A vida, que, o que começou, porque começou. Ou como. A vida é um descuido. Um borrãozinho.

Espaço para a tristeza e o luto, a vida a positiva.

E acontece irreparável, com força avassaladora. Acontece com ou sens permissões. Com ou sens caracterizações. Com ou sens choques, com ou sens

Espaço para a tristeza e o luto, o silêncio.

No silêncio todos os espaços se encontram. Se encontram portanto misturando uns cons outros perdendo-se. Perdem-se em silêncio.

Espaço para a tristeza e o luto, a coragem.

A vulnerabilidade é o que nos conecta uns aos outros. Sermos todos vulneráveis e suscetíveis, sermos esta vida, esta aparência física, tão remota, sermos esta fragilidade absoluta, esta que a morte toda hora se oferece é o que nos conecta.
Coragem é nunca querer se separar disto.
Separar-se disto é estar novamente vulnerável e portanto retornar ao espaço da vulnerabilidade.

domingo, 28 de outubro de 2012

Solidão

Escrever sobre a própria solidão como o leit motif da vida enquanto escuta, sozinho, depois de um final de semana extenuadamente sozinho, os Intermezzi de Brahms. Talvez seja esta uma prova cabal de que a solidão é a pedra chave de nossa vida. Talvez não só da minha.

Sentir-se só. Absoluta e completamente só em todas as suas mínimas características e reminiscências de memórias... em toda a sua subjetividade perceber que não encontra par no mundo pra se compartilhar. Que o compartilhamento de si é uma descontinuidade ab-rupta. Ininterrupta. Em tudo aquilo que importa, em todo o micro-universo de sua consciência, sentir-se isolado e incomunicável. Há ali afinal uma prisão maior do que outras quaisquer prisões: a de ser livre, mas não se poder comunicar. Não simplesmente existencial, não de simplesmente haver liberdade (sem saber se o há), e portanto angústia. A solidão maior que não seja a existência de si, mas a incomunicabilidade. O mundo interior, fechado pra si. A linguagem externa sempre tateando. Tateando emoções, sensações. Nos ludibriando com um conceito inventado, a verdade. A verdade, o conceito inventado pra nos dar segurança. Não há nestas nossas pequenas memórias nada mais falso que o próprio conceito da verdade. Porque parece colocado a mão neste fluxo ininterrupto pra descortiná-lo com a forma final, a verdade. Mas há, de fato, apenas sensações, emoções, análises, pensamentos livres, ideias e ideais se atacando, sobrepondo e dialogando. Não além disto algo que esteja por cima, uma verdade...

Há apenas estas pequenas memórias que estão aqui se derrubando. Este fluxo que não se controla direito. Este fluxo é a versão consonante da solidão.

domingo, 16 de setembro de 2012

Saudade

Já não se viam há tanto tempo,
e há tanto tempo que falavam só pela internet
que a saudade virou saudadwirless.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Definição

Nós... só nos definimos enquanto sujeitos, como o que somos pelo que os outros são. Nos definimos por contraste. A verdade é que sem os outros não somos nada. Sem nosso em torno não somos nem mera imaginação.

Um som baixinho

Ouve, ouve, ouve, ouve a loucura sussurrando baixinho, sussurrando baixinho no ouvido...  rompante. De existir, da loucura, como a existência inteira. Dizia baixinho-baixinho-baixinho no meu ouvido, abraça, abraça, abraça, abraça o me. Abraça o me e não tenhas medo, medo de te perder. Te perdes. Se dormes, dorme enquanto. Dorme e quando acordas não serás mais tu. Abraça o me, abraça.

Agora não sussurra mais, grita (ainda baixinho, porque sempre é baixinha a loucura). Grita e grita e grita e grita abraça o me, abraça, abraça, abraça, abraça. O me. Tanto faz que vai desaparecendo no horizonte ficando en ambience.

Caio Fernando esteve aqui

vestido de Calaf.
Temos grandes esperanças para nossas vidas. Fresquinhas direto do forno toda manhã. Caio Fernando esteve aqui, espírito já velhinho, trazia um discurso cruzado com a interferência da Turandot, dizendo mais ou menos assim:

"Nella cupa notte
vola un fantasma iridescente.
Sale e spiega l'ale
sulla nera infinita umanità.

Tutto il mondo l'invoca
e tutto il mondo l'implora
Ma il fantasma sparisce con l'aurora
Per rinascere nel cuore.

Ed ogni notte nasce
Ed ogni giorno muore."

Chi è straniero?

Caio Fernando olha pra Calaf e prenota negativamente: Não tenha esperança meu caro! Não há sangue ou Turandot neste mundo que valha o mistério de te atirares sem vida no pescoço de outrem.

(Escrito diretamente das cartas fúnebres de Caio Fernando em resposta a suas cartas otimistas de amor romântico "vai acontecer, meu caro, vai acontecer, eu sinto que acontecerá").

Não aconteceu.

Beleza

Há uma beleza natural de acontecimento dos eventos. Beleza natural é os eventos acontecendo. O amor entre os desescolhidos-de-beleza-social, o gozo todinho deles é  beleza natural: acontecimento das coisas, sucessão. Ali estão todos os cidadãos. Todos. Não se escapa nenhum. Deste gozo comum é onde a beleza emerge, e emerge de todos os gozos, por serem em si comuns. A beleza natural do acontecimento deve ser quase uma vertente termodinâmica. Um fluxo entrópico.

Há uma beleza plástica... uma beleza vendida nas embalagens da margarina feliz. Uma beleza: loira alta magra. Uma beleza robusto, peitoral, forte, pernas torneadas, bronze, cabelos lisos, caídos. Uma beleza simetria de rosto toda definida. Com barba, sem barba. Uma beleza na contra-corrente de fluxos e aforismas. Uma beleza temerosa, uma beleza que só se concretiza como auto de fé. Uma beleza cuja realização é em concretude a negação da vida.

Há outras belezas plásticas. Também na capa das margarinas felizes. Contrárias àquelas, mas ainda assim plásticas.

Há várias belezas plásticas. As belezas plásticas existem apenas como imaginários.

E há aquelas belezas reais. Do cotidiano. Cheias de vincos. Com marcas. Não envoltas em polietileno. Aquelas belezas sujeitas ao apodrecimento. Que levam menos de centenas de anos pra se desfazerem. Que se reciclam. Aquelas que o imaginário alcança de outra maneira.

Há duas belezas em constante luta. Uma tentando tomar o espaço de outra.

Escrita

A escrita é sagrada. Está pouquinho aquém do nascimento do mundo, do Universo. Portanto fica. Mesmo com a morte de Brünnhilde, o Walhalla se consumindo em fogo e as águas do Reno submergindo o mundo, a escrita perdura.

É, digamos, a coisa mais dura de se combater. Entre as transitoriedades, a mais intransitória.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O ovo e a galinha.

A galinha põe o ovo. O ovo sai pro mundo. O pintinho perde seu mundo, o interior da galinha. Herda o lado de fora. O lado de fora é uma espécie de nada. Vazio. O ovo herda o vazio. Chamam isso de vida. Mas ainda não é isso. A galinha pôs o ovo e está ali sentada a chocá-lo. No vazio do Universo o ovo se encontra sozinho. Sozinho e aquecido. A galinha o aquece, com suas penugens, cheias de vida. Cheias de calor. Um segundo momento, do vazio ao calor. O pintinho dentro. Do ovo e do calor da galinha. O ovo aquecido, seu Universo. O pintinho finalmente choca. Um choque, o Universo se quebra em dois! (De fora a platéia ovaciona o "milagre da vida"). Se parte completamente. Um novo big-bang! O pintinho herda o vazio de novo. Num terceiro momento. O milagre da vida é herdar o vazio pela terceira vez.

A imagem do pintinho é o herdar de vazio. O milagre da vida se faz toda vez que o vazio é herdado. Há na vida, um final. (Não diga obviedades, reclama o revisor). Um fim que é a quebra do vazio que se herda. Quando não há mais nenhum vazio a ser herdado. É porque ela se transformou no próprio vazio e será herdada. Her-dada (à Terra?). (Há a Terra? Nesta crueza até aqui... nem-nada se criou... o que seria a Terra?). Completo ciclo de heranças e riquezas. Heranças e riquezas, dentro do vazio. A vida vai portanto se esvaziando.

Daqui até ali, só o que se espera é a morte. O pintinho não sabe disso, porque não chegará a pensar "estou vivo". (Não diga novas obviedades, me adverte desta vez o revisor). Mas a morte espreita enérgica a cada esquina de tempo. Sabe o momento exato de atacar. Ou nem se quer que isto saiba, apenas está por ali esperando um momentito descuidado. Que sabemos nós afinal sobre a distinta senhora? (nós? e há aqui algum "nós" introduzido a priori?...).

Calha que este pintinho chega a virar uma galinha. No meio do caminho entre uma coisa e outra há o processo de esquecimento do vazio. (E já aqui outra transgressão: onde é que se definiu o que é o esquecimento das cousas?). Vai da memória do pintinho vazando a lembrança do vazio. É uma que se poderia dizer que todos conhecem. Até então a morte espreitosa. Dona de formas e vestimentos escorregadios. De um só golpe na foice, e recupera a galinha, o pintinho, o ovo o vazio: recupera por quebrá-lo. Por se unir a ele.

Não somos nós mas a morte mesmo chega a dizer com um riso discreto: começou a vida começa quando se herda o vazio. Termina no momento exato em que ele se quebra... termina pois por se transformar no vazio que de início herdou.

Conto da Carrochinha 1

Era isso. Depois do começo intenso de namoro, depois da virada cultural juntos no show da Maria Rita, Dafne e Ricardo acabaram por descobrir que não tinham mais nada em comum. Nem todas aquelas pequenas coisas do início do namoro colocadas ali no chão entre os dois fariam sentido como o lugar  - comum pra ambos: nenhum dos dois estava ainda ali. Eram muito bons os discos do Roberto Carlos, ótimas as músicas da velha guarda, a Roberta Miranda, o Iê iê iê, que delícia os filmes do Tarantino ainda em VHS, e Nancy Sinatra cantando "My Baby Shot me Down". Tudo bom e memória longínqua. Nenhum dos dois estava mais ali. Nenhum deles ia se tornando aquilo. Era mais o que tinham se tornado. Que tinham se tornado, que não podia pra ser reescrito. Fechado pra reacontecer.

Sobrou: fazer uma paixão daquilo que se tinha passado e não do que poderia vir a ser. Sobrou o que não havia mais lá. Sobrou continuar até um fim - que veio breve.

Com o fim, à Dafne restou vender o abajour-luminária em formato de Anjo que Ricardo deu de presente, esmero de sua avó. Ricardo bebeu todas as garrafas de whisky que pode da marca blacklabel, igual àquela que ganhara no dia de 6 meses de namoro (e lá isso é data pra se comemorar? ia pensando enquanto se embebedava).

Depois do fim, exorcizaram todos os demônios, beberam toda a volúpia de um no outro pra que não ficasse nenhuma memória cruzada, nenhuma lembrança desautorizada, nenhuma sobra que não te quero lá.

Queriam extinguir o fato, extinguir a razão de um no outro e o existir desencontrado que fizeram juntos nestes poucos meses. Se tivessem máquina de apagar memória, usariam. Na falta, jogavam todos os demônios que tinham pra cima destas últimas lembranças. Fumar todos os cigarros. Beber todos os whiskies. Vender todas as coisas. Se desfazer. A ordem era imperativa: não deixar permanecer em si, sombra do outro.

Era como a morte ao contrário. Quando se morre, se morre e pronto - lembrou Dafne o trecho de memória, Olímpico de Jesus dizendo a Macabea, mas que bobagem este negócio de sentir falta de si quando morrer... Uma morte ao contrário: que se quer morrer e que não morre.

E vendiam sobretudo o maior dos medos. De que aquilo tudo, as sensações, os cheiros, as corporificações inconscientes, os lutos, as gargalhadas e orgasmos ficasse preso num corpo psíquico, um que nunca se pudesse vender.

Porque no final das contas, no lugar comum de si mesmos... não cabiam entre eles de tanta paixão frêmita sobre outro... de tanto ardor adolescente, e tanto desejo pelo orgânico do outro. Só a conclusão de que não tinham dali por diante absolutamente nada em comum em suas vidas, e de que faltaram horas-dias-semanas de inconsciente, não foi suficiente pra dispersar o encontro do quentinho de um no outro. E ninguém dos dois queria.

Queriam mesmo era vender esse quentinho. Se vingar dele.
O quentinho na verdade é que se vingava dos dois. Estando sempre por ali, ria e ria e tornava a se rir com gosto de tudo.