segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Diferente

O que nós não percebemos é que... Somos todos absolutamente diferentes. E estamos desesperados para sermos iguais. Estamos espumando, babando, viscerando por sermos iguais. O pensamento ponteia sempre querer ser igual. Se for diferente... deu errado.  A única realização. É perceber que a diferença é a única coisa que nos une.

Se faz

Se faz quando o coração tem vontade de parar. 
Se chora.
Se faz quando o choro não quer sair.
Se reza.
Se faz quando a reza não se acredita.
Se silencia.
Se faz quando o silêncio dói em venenos e ácidos efervescentes sobre o corpo.
Se bebe.
Se faz quando o beber embriaga até cair envenenado.
Se grita.
Se faz quando o grito engasgou.
Se permite ao coração que pare.

domingo, 23 de agosto de 2009

O Coração

Obscuro, obscuro, obscuro, eterno.

Que veia é a que faz o sangue correr.

O drible entre uma artéria e outra,

e confuso o coração mistura,

se caindo pesaroso apaixonado

de novo pelo mesmo fado.


Mas não pensemos que não se tenha avisado

é longa a data desde quando se pronunciou...

ao coração deixaram-no de lado,

e por vingança da vida o controle ele tomou.


Resolveu que queria pra si, e mais ninguém

o intuito original de toda razão

a de gerar ordem e gerir organização,

e fez progressos que não se soube bem.


Mas o coração se cansou desta labuta

entregou o cetro pra outra mão arguta

que lhe desse garantias de manter a razão

e o deixasse em paz com sua paixão.


Foi-se dali com bico calado,

beiço trôpego e mãos para baixo.

Mas levou consigo o rim e o fígado 

Em tempo de dizer, “Autonomia, sem mim? Não!”


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Haja sexualidade

E depois eu andei pensando como o Caio Fernando, o que mais há pra se dizer sobre os gays.
Andei pensando dolorosamente sobre a adolescência gay, o quanto é um período conturbado. Bom, adolescência é sempre complicada. Já toquei brevemente no assunto num tópico lá atrás "Uma Ferida Aberta".

Sim, toda adolescência é um período difícil, frase mais batida não há. Mas vamos colocar um ingrediente a mais de complicação, o adolescente filho da classe média é gay. Ah bom, aí fica meio que um samba do balangandan. Não estou autorizado pela consciência a falar da adolescência gay nas "classes ricas" (e pouco das pobres). Pelo simples fato de que não vivi e de que não tive nenhuma experiência com isto.
Entre os pobres, o pouco que eu fiquei sabendo de amigos... é parecido. Como não tenho amigos ricos, esta parte ficará pra quando não sei. (E é uma coisa impressionante, as histórias de gays adolescentes, ou jovens que saem do armário para seus pais, como é parecida).

Como um filho gay de pais de classe média sempre soube que, o desejo dos pais da classe média é o casamento de seus filhos. Se o filho for homem, ele tem que ser um macho, provedor-reprodutor. A família tem que se assegurar, de que o machinho, novo no rebanho, consiga angariar para si, e para a moral, sempre novas cocotas, de preferência altas e independentes. (Pelo menos que assim se pareçam...)

Se a filha for mulher ela tem a opção forçada de início à vida sexual mais tarde, é claro, não queremos afinal nossas honras lavadas. Se isto parece manjado, ainda dita por aí as leis faladas e silenciadas de um sem-número de famílias, acreditem...

Aí sorrateiramente, como que dando uma rasteira nos pais, os filhos aparecem com um "sou gay", sou bicha, maricas, viado, gosto de dar ré no kibe, (ou diriam os mais sensíveis: sou diferente...) ou ainda com um "sou lésbica", sapa, calço 47, colo o velcro, ou as mais sensíveis, sou uma menina que gosta de meninas. (A diferença entre o que é a sensibilidade masculina e a feminina, notória: a homossexualidade masculina é mais impronunciável que a feminina mas não esperávamos diferente em uma sociedade falo-centrada).

As reações, bem adversas, vão de socos e pontapés, a botar fora de casa, a choro, a onde foi que eu (nós) errei(amos), a estou sentindo uma dor forte no peito. Há pais que enfartam (sim, história confirmada em primeira pessoa). 

Pra mim, gostaria de alguma coisa à Carmen, no último ato, depois do, Sou gay..., És gay? 
"Ui, cest moi(...) laisse moi passez!"

(o coro, óbvio, acompanharia com o "Victoire, Bravo!", saudando o toureiro...)

Acho que a melhor forma de contar teria que ser alguma coisa do gênero "pai, mãe, sou gay, agora vou me jogar no fogo ali, pra lavar a honra da família..." ou como fez um antigo conhecido: "pai, mãe, sou gay, e estou me expulsando de casa..." (pra evitar futuros danos mútuos, é CLARO)...

Mas sim, sempre se pode esperar a simpatia, ou as reações inusitadas, mas bonitas... Disse um amigo meu pra sua irmã (cujos nomes não cito por óbvio), "Sonia, eu sou gay...Nossaaaa Diego! Eu sabia que você era sensível, mas não sabia que era tanto!".
Infelizmente se trata de uma minoria.

Passado o choque, vamos às administrações dos efeitos colaterais. No caso de expulsão, eu não sei o que há para administrar, é fato, como se administra os pais que além da reação chauvinista, ainda expulsam os filhos da casa. Ah bem, no meu conceito, cadeia é um lugar bem novo e esclarecedor. Mas não me julguem, não é nada, a não ser um bom presente à sua bondade receptiva para boa nova.

Se a reação foi um pouco menor, vão ficar em maior ou menor grau sempre algumas frases de conteúdo interessante. "Eu não entendo você ser gay... não entendo gostar de homens, não entra na minha cabeça como um homem pode deitar com outro."
Esta é a primeira delas. De minha parte, eu não entendo não entender. E não se tratando de culpas, de um não entender o outro, cito apenas que há uma relação vertical: se você não não-me entende, eu não não-te entenderei. Conseqüentes. Portanto, se deixardes o teu não me entender, por conseqüência, o meu se desatará no ato... Entretanto, se insistes, não há o que eu possa fazer.

Outra chave mestra do depois da armadilha que os filhos, estes pirralhos mimados com suas novas modas (e agora ainda Emos!), nos trancaram é "a sua situação" (acho que já deu pra perceber que eu adoro o light motif "o inominável". Foi bem dito por Wilde há muito tempo, como o "amor que não ousa dizer o nome". Pelos vistos ele continua emudecido, e agora fazendo questão de se esconder). "A sua situação", deve sem dúvida se referir ao meu desemprego temporário. (Eu jamais pensei que se refiriria a eu ser gay, se alguém pensou).

Uma outra chamada interessantíssima é o "não conte pra ninguém". Ai de mim, contar pra alguém que sou gay. Nunca isso passou pela minha cabeça! Vou esconder sempre a sete chaves, embaixo da minha pele aqui, esta coisa tão horrorosa que é, ser gay.
"Mas eu só quero te proteger." 
(De seu egoísmo e chauvinismo?).

Finalmente uma pedra preciosa também é a "tudo bem, mas não traga seus amigos gays e/ou namorados(as) aqui em casa, não nos obrigue a passar por MAIS esta humilhação..."
Adoro essa. É como "ah você é gay? Pois então faça-me o favor de virar uma caixinha de alguns centímetros, e posar como motivo de decoração da sala (não esqueça os laços)".

Há uma série de variações a estes temas acima, e algumas outras que desconheço, porque a loucura é a maior de todas as criatividades e sempre encontra novos caminhos pra se apresentar entre públicos refinados.

Mas é claro. Seria esdrúxulo não considerar o sentimento dos pais. Não considerar que sim, pra eles também é difícil aceitar filhos gays (oras, pros filhos, gays, também esta aceitação em geral não é imediata). 
E o porque destas descrições precisas? Porque a parte a estes sentimentos pré-preparados que vêm longa data, desde a sociedade cristã, da "culpa dos gays em o serem", estes que queiramos ou não teremos de lidar, a parte a isso, precisamos, hoje ou amanhã, dissolver um pouco da auto-hipocrisia, e do sentimento conivente com o preconceito, por indulgência... (Conivência essa, bom que se note, que eu também passei, e fui abdicando, em favor do bem-social).
Infelizmente... uma libertação apenas não basta.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As Três Palavras mais Estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska (poetisa polonesa a ganhar o Nobel em 1996).

As proporções continentais.

Nas proporções continentais, que tenho lido, dos relatórios "viciados" de fundos como FMI, Banco Mundial e órgãos correlatos, temos que a União Européia, os EUA e Japão somam em suas populações algo em torno de 0,94 bilhões de habitantes (2008), ou o correspondente a 14% do total do Globo. Estes mesmos países somam, em relação ao PIB, produto interno bruto do planeta em torno de 51% do total, um valor 3,5 maior do que o que seria a média: 33 trilhões de dólares. O número 3,5 maior é do fato de se compararmos a população de 6,7 bilhões com o PIB de 65 trilhões.

Num grito distoante disto está o continente africano, e o Sul da Ásia. No continente africano, temos uma população igual à do grupo supracitado (0,93 bilhões de habitantes), e ao mesmo tempo, um PIB  total de 1,25 bilhões de dólares, o que significa 27 vezes menos do que o PIB Europa-EUA-Japão. Sul da Ásia, por sua vez, tem uma população perto de 2 bilhões e um PIB também não maior do que as proporções africanas.

Nos grupos intermediários, entram alguns países latino-americanos, China, Rússia (tendendo ao primeiro grupo contudo) e Oriente médio.

Dos demais, Oceania e tigres asiáticos, se aproximam do primeiro grupo em termos percentuais.

Isto é uma análise bastante parcial contudo. Porque, no fundo do nosso quintal, o Brasil, ocupando uma posição intermediária entre as pobrezas e as riquezas, tem ainda a dimensão catastrófica da miserabilidade advinda de uma história corruptiva, que corrobora  com a má distribuição dos recursos. Se na África, subexistem estas populações inteiras miseráveis, na mesma instância, no Brasil 15% da população (minimamente) se encontra em situação extremamente precária. Extremamente precária quer dizer abaixo de qualquer índice mínimo relativo à subexistir (que está muito aquém do existir).

É só esta a tarefa que nos falta para os nossos próximos anos.

Franco-germanófila.

O ser patético é totalmente blaisé.

O ser                 é totalmente blasé.

O ser                    totalmente blau.

    ser                    totalmente  uau.

                              totalmente   lá.

                                                      a.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Diagramação das palavras.

Aponte seu periscópio certeiro.

No nascimento de uma nova palavra.

Não deixa o censor alcoviteiro.

Desarrumar a pruma que andava.


Ó que horror dizia o censor.

Inventaste de novo o furor

Não tens nem o direito ou licença

De mantê-lo sem desavença.


Mas pra isso existem os gramáticos

Sim senhor seu censor, que decidem

Eu cá só estou em delírio

Deliciado com a invenção, um colírio...

Fim de noite

De manhã a criação pede uma folga.

Tempo pra ficar sozinha com calma.

E ronca e sonha com poemas que nascerão.

Gestados nos sonhos e nas imagens noturnas do inconsciente.


É hora de ir pra cama, diz a consciência.

A consciência sempre amiga do conselho.
Aconselha de se esquecer estas bobagens de inconsciente.

Que ataca à vaca louca a noite.


Diz a consciência pra fazer o que se deve fazer.

E nada mais.

Diz e morre pra dormir no inconsciente.

Pedindo e seguindo a desobediência.

O mau Poeta.

Poemas de mau poeta 

mal pensados,

mal talhados,

tortos em linhas retas,

vão que se vão

acusando na mão,

aqui tem um coração

que se senta e pulsa

mas não consegue

dizer com vernáculo

o que lhe vai por dentro

só pensa de momento

sobre algo existir,

Ecco è il fato!


E era italiano.

Finais de Semana

Há aqueles finais de semana sonhadores, esperançosos em Lá  bemol maior, finais de semana em manhãs de sábado com Sol entre folhas de árvores, gosto de relva. Finais de semana com filmes de fim de tarde e que se acabavam no vamos fazer outra coisa porque a televisão no domingo a tarde se negava a funcionar. Parecia dizer: me deixem em paz com minha quietude!


Há aqueles finais de semana nublados, cinzentos e cheios de olhares pro lado em Dó sustenido menor, aqueles em que se olha muito mais pra baixo, um nó na garganta, que passam lentinho, falam baixinho, resolvem uma melodia quieta, e serena de tristeza, límpida, como uma própria flanela de seda, passando lisa no tempo da mesa.


Há os finais de semana tenebrosos em Ré menor, cheio de erros e borrachas e a prova de apagadores de ações feitas e refeitas, penduradas em prego na memória, vincadas a parafusos na pele, que dizem não deixar esquecer este horror que ficou feito, o que se faz e se fará, que diz não deixar esquecer nada disso, tudo anotadinho, no livro das causas sem solução que depois tomará conta não sabemos quem.


Há aqueles finais de semana em Dó maior sem nada disso, aqueles em que só se deseja, trabalhar, estudar, assistir a novela, ler um livro, e começar de novo outras coisas na segunda-feira que não são são as mesmas da última semana.