quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Bahia

Quando eu desci. No céu da Bahia de todos os santos. Vendo as praias deste lado e as praias daquele, a ponta da Barra. Olhei para o céu e deus me disse: vai!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Destinos

Então quando os (nor)destinos chegavam em São Paulo, chegavam e paravam e ficavam. Quando cada (nor)destino humano era alimentado com sonhos apertados num pau-de-arara, no caravançaraí cheio das lembranças, ou na locomotiva, sonhos apertados nas bagagens, se sonhos de uma vida melhor, se sonhos de um não sei o quê, se sonhos da saudade de casa, se sonhos de um "estou apenas para a viagem e nada mais". Aqueles cheios das esperanças de São Paulo. E a cidade grunhia satisfeita e gulosa, pronta a massacrar a massa de (nor)destinos.

Porque cada (nor)destino humano que chegava em São Paulo toda contra eles, cada desembarque com o olhar no longe, nos milhares de quilômetros, da lonjura de casa (casa, aquela coisa que não sabemos o que é, e que se pode dizer que não existe), levava ali, naquele momento, naquele precioso instante todos os cidadãos do mundo, em sua mala. Os cidadãos do mundo botando o pé na rua manhã-cedo todos os dias pro feitio do existir... Levava ali, naquele precioso instante.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Amar

é como ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Espaço para a tristeza e para o luto

Espaço para a tristeza e para o luto, drama.

Estamos todos irremediavelmente sozinhos. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Não há fato nesta existência que se possa dizer aconteceu por isto. Acontece. Eist tudo. Estamos todos irremediavelmente perdidos. Perdidos num mar de silêncio. De incomunicabilidade. O essencial é incomunicável.

Espaço para tristeza e para o luto, o amor.

O amor acontece como um casulo, sempre na forma casulo. Está sempre casulando. Não sai da forma inicial. Não há se quer reconhecimento possível para amor que se queira sair da fase original de si mesmo.

Espaço para a tristeza e o luto, a vida a negativa.

A vida acontece como um erro de tudo. Acontece como o erro das probabilidades deste mundo. A vida, que, o que começou, porque começou. Ou como. A vida é um descuido. Um borrãozinho.

Espaço para a tristeza e o luto, a vida a positiva.

E acontece irreparável, com força avassaladora. Acontece com ou sens permissões. Com ou sens caracterizações. Com ou sens choques, com ou sens

Espaço para a tristeza e o luto, o silêncio.

No silêncio todos os espaços se encontram. Se encontram portanto misturando uns cons outros perdendo-se. Perdem-se em silêncio.

Espaço para a tristeza e o luto, a coragem.

A vulnerabilidade é o que nos conecta uns aos outros. Sermos todos vulneráveis e suscetíveis, sermos esta vida, esta aparência física, tão remota, sermos esta fragilidade absoluta, esta que a morte toda hora se oferece é o que nos conecta.
Coragem é nunca querer se separar disto.
Separar-se disto é estar novamente vulnerável e portanto retornar ao espaço da vulnerabilidade.

domingo, 28 de outubro de 2012

Solidão

Escrever sobre a própria solidão como o leit motif da vida enquanto escuta, sozinho, depois de um final de semana extenuadamente sozinho, os Intermezzi de Brahms. Talvez seja esta uma prova cabal de que a solidão é a pedra chave de nossa vida. Talvez não só da minha.

Sentir-se só. Absoluta e completamente só em todas as suas mínimas características e reminiscências de memórias... em toda a sua subjetividade perceber que não encontra par no mundo pra se compartilhar. Que o compartilhamento de si é uma descontinuidade ab-rupta. Ininterrupta. Em tudo aquilo que importa, em todo o micro-universo de sua consciência, sentir-se isolado e incomunicável. Há ali afinal uma prisão maior do que outras quaisquer prisões: a de ser livre, mas não se poder comunicar. Não simplesmente existencial, não de simplesmente haver liberdade (sem saber se o há), e portanto angústia. A solidão maior que não seja a existência de si, mas a incomunicabilidade. O mundo interior, fechado pra si. A linguagem externa sempre tateando. Tateando emoções, sensações. Nos ludibriando com um conceito inventado, a verdade. A verdade, o conceito inventado pra nos dar segurança. Não há nestas nossas pequenas memórias nada mais falso que o próprio conceito da verdade. Porque parece colocado a mão neste fluxo ininterrupto pra descortiná-lo com a forma final, a verdade. Mas há, de fato, apenas sensações, emoções, análises, pensamentos livres, ideias e ideais se atacando, sobrepondo e dialogando. Não além disto algo que esteja por cima, uma verdade...

Há apenas estas pequenas memórias que estão aqui se derrubando. Este fluxo que não se controla direito. Este fluxo é a versão consonante da solidão.

domingo, 16 de setembro de 2012

Saudade

Já não se viam há tanto tempo,
e há tanto tempo que falavam só pela internet
que a saudade virou saudadwirless.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Definição

Nós... só nos definimos enquanto sujeitos, como o que somos pelo que os outros são. Nos definimos por contraste. A verdade é que sem os outros não somos nada. Sem nosso em torno não somos nem mera imaginação.

Um som baixinho

Ouve, ouve, ouve, ouve a loucura sussurrando baixinho, sussurrando baixinho no ouvido...  rompante. De existir, da loucura, como a existência inteira. Dizia baixinho-baixinho-baixinho no meu ouvido, abraça, abraça, abraça, abraça o me. Abraça o me e não tenhas medo, medo de te perder. Te perdes. Se dormes, dorme enquanto. Dorme e quando acordas não serás mais tu. Abraça o me, abraça.

Agora não sussurra mais, grita (ainda baixinho, porque sempre é baixinha a loucura). Grita e grita e grita e grita abraça o me, abraça, abraça, abraça, abraça. O me. Tanto faz que vai desaparecendo no horizonte ficando en ambience.

Caio Fernando esteve aqui

vestido de Calaf.
Temos grandes esperanças para nossas vidas. Fresquinhas direto do forno toda manhã. Caio Fernando esteve aqui, espírito já velhinho, trazia um discurso cruzado com a interferência da Turandot, dizendo mais ou menos assim:

"Nella cupa notte
vola un fantasma iridescente.
Sale e spiega l'ale
sulla nera infinita umanità.

Tutto il mondo l'invoca
e tutto il mondo l'implora
Ma il fantasma sparisce con l'aurora
Per rinascere nel cuore.

Ed ogni notte nasce
Ed ogni giorno muore."

Chi è straniero?

Caio Fernando olha pra Calaf e prenota negativamente: Não tenha esperança meu caro! Não há sangue ou Turandot neste mundo que valha o mistério de te atirares sem vida no pescoço de outrem.

(Escrito diretamente das cartas fúnebres de Caio Fernando em resposta a suas cartas otimistas de amor romântico "vai acontecer, meu caro, vai acontecer, eu sinto que acontecerá").

Não aconteceu.

Beleza

Há uma beleza natural de acontecimento dos eventos. Beleza natural é os eventos acontecendo. O amor entre os desescolhidos-de-beleza-social, o gozo todinho deles é  beleza natural: acontecimento das coisas, sucessão. Ali estão todos os cidadãos. Todos. Não se escapa nenhum. Deste gozo comum é onde a beleza emerge, e emerge de todos os gozos, por serem em si comuns. A beleza natural do acontecimento deve ser quase uma vertente termodinâmica. Um fluxo entrópico.

Há uma beleza plástica... uma beleza vendida nas embalagens da margarina feliz. Uma beleza: loira alta magra. Uma beleza robusto, peitoral, forte, pernas torneadas, bronze, cabelos lisos, caídos. Uma beleza simetria de rosto toda definida. Com barba, sem barba. Uma beleza na contra-corrente de fluxos e aforismas. Uma beleza temerosa, uma beleza que só se concretiza como auto de fé. Uma beleza cuja realização é em concretude a negação da vida.

Há outras belezas plásticas. Também na capa das margarinas felizes. Contrárias àquelas, mas ainda assim plásticas.

Há várias belezas plásticas. As belezas plásticas existem apenas como imaginários.

E há aquelas belezas reais. Do cotidiano. Cheias de vincos. Com marcas. Não envoltas em polietileno. Aquelas belezas sujeitas ao apodrecimento. Que levam menos de centenas de anos pra se desfazerem. Que se reciclam. Aquelas que o imaginário alcança de outra maneira.

Há duas belezas em constante luta. Uma tentando tomar o espaço de outra.

Escrita

A escrita é sagrada. Está pouquinho aquém do nascimento do mundo, do Universo. Portanto fica. Mesmo com a morte de Brünnhilde, o Walhalla se consumindo em fogo e as águas do Reno submergindo o mundo, a escrita perdura.

É, digamos, a coisa mais dura de se combater. Entre as transitoriedades, a mais intransitória.